jan
28
Nem tudo é o que parece ser…

 

Estou cansada de perceber que todos acham que estou ótima por estar sem emprego, sem dinheiro e ir morar na Alemanha por três anos sem saber nada de alemão e sem ter certeza nenhuma sobre o que me espera!

Acho que a culpa é minha… pois não paro de rir e brincar, sempre irritantemente feliz e sorridente, cheia de histórias e versões pra contar e encantar… Mas será que ninguém percebe o medo que está aqui dentro!? Será que ninguém reflete o quão difícil é deixar seu país, seu emprego, seus amigos, sua família, sua história para habitar em um mundo completamente avesso ao seu!?

Eu sei… é ESCOLHA MINHA !!! Ninguém precisa me dizer isso… mas não tornem fácil e encantado o que não é!

Vou continuar exteriorizando minha fé e minha crença de que tudo vai dar certo… de que vou me encontrar e encontrar algo que, enfim, me faça feliz nesse país tão diferente do nosso…

Ser assim é o que me faz ter força e coragem para ir além do que a maioria vai… fácil é continuar onde se está, fácil é não mudar pra não correr riscos, fácil é se acomodar com as migalhas que nos oferecem todos os dias…

Fácil seria eu continuar aqui mendigando onde morar, o que comer e quanto ganhar pra aguentar tanta falsidade, hipocrisia e egoísmo!!!!!!!! Fácil é percorrer o caminho que todos conhecem… e isso eu não quero!!!

Fácil seria continuar a ouvir todos os dias que “só o diploma salva!”, ouvir doutores dizendo asneiras e todos aplaudindo … afinal são “doutores”… Bons tempos em que doutor era uma classe composta somente de médicos! Fiquei 7 anos pleiteando um diploma de Engenheira… consegui!!!!!!! E daí??? Primeiro que nem sei se é isso que quero (ainda…), depois que o mercado está saturado e exigindo o que só famílias de primeira classe podem te dar, inglês quase sempre pra vagas que você vai atrofiar, pós simplesmente pra ter certeza que você ajudou mais aos cofres públicos e privados do que ao seu bem estar!!!!!! Isso é massificação e não educação!!!!

Desempregado??? Alguém já pensou na origem deste adjetivo dado à quem não está contribuindo para o crescimento do PIB??? Des-empregado, ou seja, um cara sem emprego, um cara sem “utilidade”…. Você se considera um desempregado? EU NÃO!!!! Sou hoje uma mulher sem funções voltadas ao enriquecimento financeiro do país!!! E nem por isso deixo de ter “utilidade” ao país!!!

Você que hoje tem emprego? Sente-se realizado? Valorizado? Vê perspectivas? Sente-se verdadeiramente útil e bem utilizado? Sua capacidade é explorada? Se suas respostas são afirmativas: PARABÉNS!!!. Considere-se a minoria brasileira e, quiçá, mundial !!!

Você que hoje é graduado, sente-se realizado? Valorizado pela sua conquista? É isso que sempre buscou? Sente-se verdadeiramente útil à sociedade? O retorno é compensador? Mais um dos poucos felizardos….

Agora quem dos felizardos que estão satisfeitos e felizes da vida não tiveram um dia que abrir mão de algo extremamente valioso e que em muitos momentos da sua conquista não sentiram um medo profundo do passo que estavam dando???? Estes sim entendem o que digo e o que sinto….

Sempre, absolutamente SEMPRE busquei minha independência pessoal e financeira. Queria sair de casa desde os 15 anos, mas só tive cacife a partir dos 24 anos e fui…. sai da casa da minha família para morar à apenas 25km em uma “casa de família” num quartinho minúsculo. Fui audaciosa, pois mesmo tendo grana não tinha muita grana e cheguei a ficar sem comer pra pagar religiosamente em dia o aluguel de R$200,00 no quartinho. Lá me senti muito amada por aquela família… a Dona Virgínia, uma senhora linda, é pra mim eternamente uma das muitas mães que me adotaram por ai. Cuidava de mim e de minhas coisinhas incondicionalmente! Saudades que faz chorar… Depois surgiu a oportunidade de morar com duas pessoas muito queridas! Sempre de canto em canto com meu suado dinheirinho, desde meus 17 aninhos no mercado de trabalho e satisfeita por caminhar com meu esforço. Era tudo que sempre quis…. não precisar pedir à mais ninguém um centavo se quer…

Mas Deus me pôs à prova…. estou face-a-face com ela! Mas antes de ser uma mulher independente, também sou uma mulher flexível com os desígnios de Deus e sei identificar seus sinais de continuar ou parar… (embora muitas vezes os anjos tenham que me dar rasteiras pra parar…). Junto com o amor vieram possibilidades do novo, do novo que muitos temem, mas que outros buscam a vida inteira!

Entendo que criei uma fortaleza que todos enxergam e por isso julgam que tudo está sendo tão mágico, mas entendam, precisei criá-la mas não quero ser mais sua prisioneira! Também tenho medo, também choro de saudades e de frustração, também tenho crises existenciais e também me tranco no quarto sem querer ver ninguém… Sou humana e tenho todas fraquezas e deficiências que qualquer ser humano é passível de ter!

Sou abençoada pela oportunidade que a vida está me dando, mas não preciso agora ouvir que “me dei bem”, preciso ouvir: “Quando precisar, lembre-se que não está só!”



jan
25
Brasil … voltei, mas já tô indo !!!

 

Eu voltei após um mês de “Curso Preparatório Fritzista” e voltei com a corda toda, fora que minha língua vai calejar de tanto eu falar! E é nessas horas que tenho certeza que meus amigos me amam… haja paciência pra me ouvir depois de um mês!!!

Agora tenho que me readaptar, pois é dificílimo! E olha que foi SÓ um mês… Para ilustrar segue uma lista de conflitos mentais e comportamentais que já identifiquei:

- jogar o papel higiênico no cestinho de lixo e não na privada;

- atravessar a rua quando não há carros vindo, mesmo que o farol de pedestre ainda esteja vermelho;

- pedir “desculpas” e não dizer: “Entschuldigung” (desculpa ou com licença em alemão);

- dizer “obrigada” e não “danke” (obrigada em alemão);

- questionar com “como?” ao invés de “bitte”.

É estranho entender nossa mente nesta fase de transição cultural… parece que dá pane e o botão “on/of” não “fununcia”!!! Chega a ser desesperador esquecer, inclusive, como se diz algumas coisas em Português.

Mas o negócio é seguir em frente e rir destes conflitos, afinal me acompanharão por muito tempo e tenho que aprender a conviver com eles. O que importa agora é curtir “nosso Brasil” nesse mês e sentí-lo com toda intensidade que puder, pois assim supera-se a saudade dessa atmosfera tão intercultural e hospedeira que só nós temos… essa capacidade infinita de conviver e respeitar todas raças e crenças desse planeta!

É disso que quero lembrar quando estiver longe… dessa atmosfera de amor e alegria que aqui habita! E ter a certeza de que sou filha da pátria e aqui é minha casa, pra onde sempre poderei voltar!!!

Agora é fechar a conta, passar a régua e fazer muita… MUITA FESTA !!!! Afinal é disso que brasileiro gosta e é isso que me faz ser mais brasileira… VIVER EM FESTA !!!!

“…. Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros que nós queremos sambar…. ” (Moraes Moreira)



jan
23
Meu último dia de turista na terra de Bach…

 

 ”Só me interessam os passos que tive de dar na vida para chegar a mim mesmo.” (Herman Hesse)

Hoje é meu último dia “na boa” aqui na Alemanha, afinal quando voltar para cá não serei mais uma turista, mas sim uma expatriada em busca do crescimento e superação em todos sentidos… Escolhas que fiz consciente, pois tenho certeza de que vale a pena, pois sempre valerá a pena estar com quem se ama e ampliar horizontes através de experiências interculturais.

Neste mês que fiquei por aqui tive as primeiras impressões e certezas do que está por vir e do que esta experiência vai exigir de mim. Sinto que a grande barreira, sem surpresas, é a língua germânica e seus inúmeros dialetos. As demais peculiaridades são culturais e a adaptação em qualquer país implica em aceitá-las e tentar compreende-las, estando sempre aberto à possibilidade de adotar algumas e ignorar outras, afinal aqui você é o “intruso” e não quem dita as regras.

Percebi que para muitos alemães somos estrangeiros intrusos querendo ocupar o espaço e a história deles, por isso é comum que te tratem com desprezo e arrogância. Mas quer um conselho? Sorria sempre que for mal-tratado e agradeça, afinal somos “intrusos” bem educados e gentis, certo!? Eles são, no geral, intolerantes e reservados. Não tem paciência pra explicar o que pra eles é “óbvio” e através de sua gramática já te dizem se ele quer ser seu amigou (usam o “Du” como sujeito que significa você) ou prefere que você respeite a intimidade dele (usam o “Sie” que significa Sr.) e com isso os verbos que acompanham estas formas também mudam. Eles não são fofos!? Afff…

Desculpe e obrigada são artigo de luxo por aqui… por isso uso sempre! Afinal sou um luxo! O único problema é que sou quase sempre ignorada quando pronuncio estas palavras em extinção por aqui… Mas sou brasileira e não desisto nunca! Afinal, existem alemães maravilhosos e vale a pena manter os bons costumes pra ganhar alguns sorrisos por aqui. É verdade! Eles existem! Os alemães simpáticos e sorridentes existem! Inclusive alguns idosos são uma gracinha… por exemplo nossos vizinhos aposentados da frente. 

Gastronomicamente falando, não estou sentindo falta de ABSOLUTAMENTE nada!!! Afinal o que mais amo é tomar café-com-leite (aqui “latemacchiatto” ou “milchkaffe”… ainda não sei qual a diferença…) e comer pão com margarina+geléia, e isso aqui tem de sobra e com variedades e preços irresistíveis! Verduras e legumes são carinhos, mas tem muitos legumes “mini” que são uma delícia. Frutas … maçã tem de penca e pera também, agora a banana… urgh! Ela sempre é comprada verde e os alemães adoram comer quando começa a aparecer aquelas manchas pretas. Vai entender…

O transporte público é um espetáculo! Você paga de acordo com a extensão do trajeto que vai percorrer. Não tem cobrador não! Tudo aqui funciona na base da confiança, pois em tese o povo alemão é muito honesto e respeita bem as regras, porém aleatoriamente pode entrar no transporte um guarda pedindo para ver seu bilhete e se não estiver com ele é multado na hora! Ou seja, o crime não compensa e muito menos a vergonha que vai passar! A parte ruim é que se dormir e passar o número de zonas do bilhete comprado, pode ter o azar do guarda te pegar! Tô na roça, pois amo dormir no ônibus!

Tem muita balada boa por aqui! Já fomos em algumas interessantes, onde rola música dançante para um povo que não mexe nem a sombrancelha… assustador! Mas tivemos o prazer de assistir num bar mexicano os alemães soltando o latino que há neles! Foi engraçado ver um alemão de 2 metros e pouco dançando Flamenco!!! Preciosidades germânicas…

Restaurantes e bares…. sem comentários! MA-RA-VI-LHO-SOS!!!! Come-se e, principalmente, bebe-se muito e muito bem por aqui!!! Beber aqui é um esporte!!! Tô em casa!

As paisagens são pinturas em tela! Às vezes fico olhando e por um minuto sinto como se ainda não fizesse parte desta paisagem ou que talvez nunca consiga me sentir nela… acho que o dia que essa sensação passar é porque a magia acabou…

Ver tanta planície nos leva a lembrar que a Europa é velha… que há milhares de anos seus recursos vem sendo consumidos incansavelmente e suas montanhas foram consumidas pelos movimentos das águas e pelas intempéries que esculpem suas rochas. Um dia o Brasil será velho e plano… foi isso que pensei nessa sequencia de abstrações. Praticamente toda vegetação da Alemanha é plantada e mesmo assim tiveram que desenvolver formas de fazer germinar suas culturas enriquecendo seus solos tão inférteis.

As crianças aqui sem dúvida são felizes por estarem em segurança! Existem aqui inúmeros e imensos campos de plantações  cortados por caminhos onde todas gerações se encontram para caminhar, andar de patinetes, andar de bicicleta, conversar… É lindo ver crianças sendo crianças! 

Os idosos são super ativos e atletas, invejável e… preocupante para o governo que gasta milhões… bilhões para manter tantos idosos num país onde a taxa de natalidade é baixissíma e alarmante!

É um país históricamente rico e culturalmente interessante. Fico ansiosa para falar a língua deles e poder me comunicar e trocar experiências, tentando compreendê-los e poder plantar sementes de alegria neste solo tão gasto e cansado após tantos anos de duras guerras.

Desconhecemos o que é passar milhares de anos em conflito para defender uma terra e para isso vê-la sendo incansavelmente destruída, talvez por isso eu ainda admire tanto esse povo hoje tão endurecido com sua história e ao mesmo tempo tão determinado à transformá-la…

Penso que um homem não nasce triste…. o que faz com sua história pode entristecê-lo! Mas TUDO é uma questão de escolha, pois as tristezas podem ser feridas eternas ou apenas uma brisa que passa e dá espaço ao sentimento de superação!

Assim, acabo o relato no ângulo de uma turista a um passo do futuro, distante de sua pátria, mas levando sua história para dividí-la e nutrí-la em outros povos de outros “mundos”…

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