Lava Rápido na Alemanha…

Maira on março 30th, 2008

… só se você for muito rápido e chegar cedo…

Aqui devido à escassez e uso controlado de água não existe aquela situação de lavar carro em casa e ainda, de quebra, brincar de guerrinha de água com a mangueira. Aliás essa última é a parte mais triste, pois lembro claramente até hoje a festa que era em casa quando meu pai resolvia lavar a caranga… (((-:

O que existem são estabelecimentos com várias cabines para lavar a carroça (e queeee carroça…) e outro espaço para aspirar o interior desta.

Você mesmo faz tudo isso, mas paga por cada minuto e, por isso, se quiser economizar € tem que ser ligeiro! O custo é de 0,50€ (R$1,40) para utilizar um minuto tanto a água quanto o aspirador de pó. É só introduzir as moedinhas na máquina, que ela mesma controla o seu tempo e desliga pra você. Isso mesmo! Não tem NINGUÉM trabalhando nesse lugar, só os próprios donos dos carros e motos. Coisa de primeiro mundo e de país com taxa de desemprego absuuuuurda, como é o caso da Alemanha.

Outra coisa que descobrimos no último sábado: não existe fila, ou melhor, não existe respeito. Nós ficamos esperando um tempão acreditando que era por ordem de chegada e que isso seria respeitado, mas com isso quase ganhamos uma úlcera, pois toda hora um espertinho aparecia do nada e entrava nas cabines vagas e ainda faziam cara de paisagem. Portanto seja esperto, pois do contrário ficará horas por lá. Quando chegar observe se já tem alguém terminando e se posicione na entrada da cabine premiada e espere atentamente até a hora de entrar.

Pasmen, não é só no Brasil que a esperteza vale mais do que o respeito pelos outros…

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Só não vemos quando temos…

Maira on março 28th, 2008

Já fazem alguns intermináveis dias que, mesmo com o “teórico” início primaveril, convivo diariamente com dias escuros quando vem chuva ou absurdamente claros quando vem a neve. Sim, resolveu nevar na primavera por aqui levando turistas ao êxtase, pois jamais imaginariam tal situação apocaliptica.

Enfim, quando se vive no Brasil tem-se quase sempre variações bruscas de tempo, mas entre todas estas mudanças há sempre dia sim ou dia não um céuzinho azul e até mesmo um solzinho pra aquecer nossos brasileiros e quentes corações. Aqui não. E não é a toa que eles tem muitos problemas com depressão durante outono e inverno, pois falta luz, falta cor, falta vida, mas pelo menos não falta aquecimento nas casas…(((-: Ufa…

Mas hoje Deus nos abençoou com um dia ABSURDAMENTE maravilhoso!!! Depois de almoçar com umas amigas resolvi caminhar com uma delas 6km através de um parque maravilhoso que fica pertinho de casa. Sem brincadeira, eu parecia uma caipira que nunca foi ao cinema e quando vai fica com cara de “hein”. Minha amiga falou à bessa no meu ouvido, mas eu não parava de inspirar aquele ar primaveril e de tirar fotos compulsivamente, como se eu nunca tivesse visto uma paisagem como esta antes. Foi como um primeiro contato com a natureza e isso eu não lembro de ter sentido no Brasil. Não do sentimento de “primeiro contato”, apesar de muitos sentimentos de “espetacular contato”.

Quando um dia desses surge por aqui todos saem de casa e enchem todas praças e parques da cidade. Inacreditável !!!! Ontem não se encontrava quase ninguém até mesmo nas ruas e hoje não cabia mais gente na grama dos parques. O humor então muda completamente. São simpáticos, sorridentes e até gentis. Isso me levou a uma tese: o coração dos alemães é solar. (((-:

Espero levar essa experiência para o resto da minha vida e evitar dormir além das 9 horas da manhã, quando Deus nos presentear com um dia como o de hoje…

Não quero mais perder pra aprender a ganhar…  

 

Um ano se passou desde que minha vida girou 360°. Me casei, me formei, me demiti e me despedi. Tudo isso há um ano atrás no mesmo momento, por uma mesma meta, por um mesmo desafio.

Após um mês escrevi sobre as primeiras impressões e agora, 11 meses depois, escrevo sobre as experiências realmente vividas e o significado de cada uma delas. Dizem que não se pode dizer que conhece um lugar se não passar nele as quatro estações do ano. Por isso, talvez eu já possa dizer que conheço a Alemanha ou, ao menos, uma parte dela.

Sempre digo e repito que todos os povos tem seu lado bom e ruim, assim como cada indivíduo. Também sempre quis acreditar que eu encontraria algo muito bom aqui que mudasse completamente as impressões ruins que alguns estrangeiros me passaram no começo. Ilusão…. o povo alemão é, em geral, realmente difícil de lidar. Mas ressalto desde já, que me refiro em boa parte desse post a alguns idosos (que são maioria esmagadora no país), pois os jovens alemães são, em geral, bem diferentes.  

O povo alemão é talvez um dos povos mais difíceis que existe… Escrevo isso, pois fiquei um ano convivendo não só com alemães, como também com gente do mundo inteiro e, percebi que todos reclamam das mesmas coisas em relação aos alemães e que a relação que tenho com todos é bem mais simples do que com estes. Como entender por exemplo pessoas que ao invés de dizeram “COM LICENÇA” pra passar hurram no seu ouvido “ATENÇÃO”, dando a entender que, na verdade, é você que está no lugar errado e, só por isso, elas não sentem obrigação nenhuma de serem gentis e pedir licença. Esses são alguns dos alemães…

É muito mais fácil entrar no mundo de outros estrangeiros do que no mundo de um alemão. Eles dificultam o máximo sua integração, mantendo-se sempre fechados nos seus grupos. Como estrangeiro tem que ser muito persistente ou sortudo para integrar um grupo de alemães. Acho que eles fazem esse jogo justamente pra ver até onde você é capaz de ir por algo que almeja, pois eles te põem à prova o tempo todo, seja de paciência ou de desempenho em qualquer âmbito.

Regras. Possuem uma característica forte de organização e sistematização, ou seja, não basta estar “em ordem” tem que ser possível repetir exatamente “esta ordem”. Uma vez uma professora do curso nos disse que, se um dia alguém chegar em uma rua e apagar a faixa que delimita duas pistas, os alemães que passarem ali não conseguirão seguir em frente por não terem mais uma regra a se cumprir. Eles precisam de regras, por isso as criam para tudo e até mesmo para coisas que nunca vão precisar usá-las.

Senso de humor. O senso de humor também é algo que falta por aqui. Geralmente eles não entendem nossas piadas ou “brincadeiras” com intuito de distração, levam quase sempre a sério e te dão respostas ásperas realmente, como se tivessem se sentido ofendidos. E quando contam algo engraçado geralmente só os alemães riem também. Quando assisto programas teoricamente de comédia por aqui, dá vontade de chorar de tantas supostas piadas que agridem meu bom humor. Essa diferença entre o que é engraçado para um alemão e o que é engraçado para um brasileiro é algo que pode se complicar vivendo aqui depois de algum tempo. Agora, quando vem algum brasileiro passear por aqui, percebo que por vezes demoro muito mais para perceber que se trata de uma piada do que antes. Eu sempre fui muito piadista (até demais…confesso…), mas me vejo numa situação nova agora, pois a falta de contato com brasileiros me tornou diria até um pouco “ingênua”. Mas espero que eu me cure ao menos temporariamente desta enfermidade nesse um mês e meio que ficarei no Brasil, caso contrário sinto que vou perder a piada e os amigos…kkkk

TV. A programação de TV é (salvo exceções) horripilante! Quase todos filmes eu já assisti no Brasil quando tinha 13 anos! Tem muito Talk Show e muito, muito, mas muito mesmo programa que é filmado nos zoológicos da Alemanha mostrando leãozinhos sendo tratados como cachorros dóceis e amáveis. Maaaas tem algo que é bom e que, por isso, é preciso dizer: os documentários que passam bem à noitinha. Extremamente bem produzidos e apresentados. Tem um outro programa também que adoraria que alguma emissora de TV do Brasil copiasse… é um programa que apresenta alemães que se mudaram para outros países, mostrando como acontece esse processo e todas as dificuldades e vantagens que fazem parte dessa decisão. Somado à experiência e percepções pessoais destas pessoas é mostrado também a cultura e atrações deste novo “lar”, enfim… um programa com conteúdo de verdade. Já na  área de ficção temos as novelas alemães que são um insulto às nossas. Ruim demais mesmo! Todas acontecem com um único núcleo onde todos se conhecem… uma comédia entediante ou um drama que faz realmente chorar. Tem outro tipo de programa que também acho ótimo: programas para discutir assuntos da sociedade, mas trazendo para isso especialistas e formadores de opinião de direita e de esquerda. AdorO!!!! Eles acontecem periodicamente e trazem sempre assuntos importantes na pauta. Acho super importante, pois através desse tipo de programa o espectador aprende muito e vê sempre os dois lados da moeda, podendo SOZINHO decidir de que lado esta. Resumindo… o povo é incentivado a refletir e não simplesmente a aceitar informaçães “vomitadas” como verdade.

Tolerância Zero. O sociedade alemã é baseada no princípio da “tolerância zero”. Frequentar o comércio por aqui é a primeira prova disso. Eu, por sorte, encontro muitos alemães gentis no comércio, mas já tive contato com situações de extrema grosseria por parte de um alemão com outra pessoa, quer ela seja alemã ou não. Eles são por vezes diretos demais e severos também. No trânsito não toleram qualquer demora ou erro. Se você estiver distraído e não ver o farol aberto, após 2 segundos eles tacam a mão na buzina. No mercado não é melhor. Eles costumam fazer compras uma vez por semana ou quicá todo dia (talvez porque a geladeira aqui é minúscula), ao contrário de nós, brasileiros, que fazemos a big compra do mês (e temos uma big geladeira). Então imagina o que acontece quando um brasileiro faz aqueeeeela compra e o sr. ou sra. Fritz estão atrás deste na fila… Eles começam a bufar desesperadamente por não poder te xingar! kkkk…. Imagino que devem fazer terapia por isso, pois não há REGRA que diga que é proibido fazer apenas uma grande compra por mês. Azar deles e sorte nossa!

Atividade. Quer ver um alemão feliz? Vá a um clube deles, os chamados “Verein”. É outra Alemanha o que se vê quando você integra uma aula de ginástica ou qualquer coisa relacionada à esporte. Eles dão gargalhadas!!! Inacreditável!!! Eu, que não sou boba, me matriculei em um desde fevereiro e estou impressionada… Me fez bem ver esse lado. Dá um pouco de esperança de que com o tempo e com a “invasão” dos estrangeiros aqui eles se tornem mais felizes ou, ao menos, mais espontâneos. Eles tem um amor pelo esporte e atividades relacionadas à movimento que é pra se aplaudir. Tem muitos idosos acima dos 50 anos que deixam a gente no chinelo. Andam muito, tanto a pé quanto de bicicleta desde a infância até, se bobear, bater as botas. É realmente assustador o pique dos velhinhos por aqui, o que é perfeitamente justificável pela qualidade de vida que eles tem.

Qualidade de vida. A prova de que o ser humano estará sempre insatisfeito, por mais que lhe seja dado está estampada na vida dos alemães. Reclamam sempre e por tudo mesmo tendo tudo que tem. O governo alemão tem muitos programas sociais que propiciam uma qualidade de vida espetacular para todos que vivem aqui, principalmente para os próprios alemães. O desconto em folha de pagamento relacionado à impostos é superior ao desconto aplicado no Brasil, mas a grande diferença é que aqui se vê retorno. O dinheiro que se recebe como  auxílio por aqui é na verdade um presente de mãe e até por isso a fonte está secando. Um desempregado recebia até pouco tempo um bom dinheiro pra se manter durante um período indeterminado, fazendo com que muitos decidissem ficar em casa ao invés de trabalhar pra ganhar menos do que ganhavam como desempregados. Hoje o governo mudou as regras, mas mesmo assim ganham muito bem até, no máximo, um ano e depois o governo oferece QUALQUER emprego e o sujeito tem que aceitar, caso contrário perde a boquinha. Os aposentados então vivem no paraíso antes mesmo de ir pro céu. Não é a toa que para qualquer lugar que você viaje sempre tem um grupo de aposentados alemães integrando um grupo de excursão. Até a igreja entra na folha de pagamentos! Sério! Mas ai é opcional. Eles te perguntam de qual religião você é: católica ou protestante e se gostaria de contribuir para o padre/pastor comprar uma Ferrari nova. (((-:  O sistema de saúde funciona e não te deixa na mão, principalmente porque você não pode morar na Alemanha se não tiver ao menos um plano básico de saúde. Agora, sinceramente, acho nossos médicos bem melhores. Pra quem quer ser mãe também tem agora, devido à crise relacionada a baixissíma taxa de natalidade, muitos benefícios pra nenhuma mãe botar defeito. Um deles é que a mulher aqui pode ficar em casa até a criaturinha completar 3 anos de idade e tem como garantia sua vaga na empresa após essa “licença maternidade prolongada”.

Conceitos. Uma coisa muito interessante que aprendi aqui é que é uma banana pra você, não necessariamente é uma banana pra outra pessoa que cresceu em outra cultura. Tem dois exemplos que aprendi e que me marcaram. O primeiro diz respeito ao que é ser pobre. Para nós brasileiros ser pobre é ganhar pouco, mas mesmo assim ter um teto e algo pra comer e até quem sabe ter um fusquinha pra passear. Abaixo disso é o que chamamos de miserável. Já na Alemanha, onde não existe miséria nem na realidade e muito menos no dicionário, ser pobre é comparado justamente ao nosso miserável. Outro conceito interessante é o de analfabeto. Pra eles analfabeto é alguém que aprendeu a ler e a escrever, mas que com a falta de uso ao longo de anos se esqueceu. Bom, ainda bem que no nosso dicionário isso se chama esquecido, pois ao contrário estaríamos numa colocação muito pior no ranking de países com maior número de analfabetos. Afff…

Juventude. Os alemães jovens já são bem diferentes. Eles não tem como fugir do novo processo de integração com estrangeiros e, principalmente, com turcos e muçulmanos. Lógico que também existem jovens que não aceitam isso, mas acredito que seja a minoria. Diariamente vejo cenas lindas de muçulmanos, alemães e negros numa roda rindo juntos. É delicioso ver isso! No carnaval quase tirei uma foto, mas fiquei meio receosa. Era uma alemãzinha pintando um colega negro para desfilar naquele momento na rua. Achei a cena massa demais! Era o retrato da possível integração efetiva… Mas aqui também tem, pra variar, muito jovem problemático, talvez por serem criados a vida inteira com mil toneladas de obrigações e deveres. Surgem então os punks, os neonazistas e outros grupos que pretendem quebrar todas as regras da sociedade alemã. Somados à esses jovens problemáticos alemães, vem outro grupo: os descendentes estrangeiros nascidos na Alemanha, mas sem direito à naturalidade alemã. Muitos são turcos e, por serem “diferentes”, foram sempre marginalizados dentro desta sociedade. O resultado é que como qualquer “marginal” estão trazendo sérios problemas para a Alemanha devido ao seu comportamento muitas vezes agressivo e desrespeitoso.

Ponto pra eles. Apesar de todos as características difíceis desse povo, tenho que admitir que eles são positivamente imbatíveis em algumas coisas. Primeiro é a sinceridade e honestidade. É um povo decididamente CORRETO. Talvez por se darem muito bem, no geral, com regras agem sempre de uma maneira muito correta seja com dinheiro ou com pessoas. É invejável e curioso, pois eles não costumam mentir pra te agradar. Isso significa que se um dia um alemão te disser que você é amigo dele, pode ter certeza: você é MESMO amigo dele e ele sempre fará o que for possível por você. Outra coisa que coloca os alemães na frente é que aqui é o país onde você encontra todos apetrechos que considera inúteis até o dia em que decide comprar um. Inventam de tudo pra facilitar a sua vida e poupar as suas costas e seu tempo. São coisas como por exemplo uma escovinha de pia que gruda na parede, nos ajudando a economizar espaço livre na pia e não ter que comprar um suporte. Não é tudo que vocês sempre sonharam!? Mas a coisa mais impressionante mesmo é a infra-estrutura e a forma como esta foi e é atingida por aqui. Usam de tecnologias de máquinas para facilitar tudo e não sobrecarregar o peão. É tudo feito de forma organizada e limpa. Tudo bem que às vezes sinto que exageram um pouco, pois não podem ver um desnível na calçada que quebram tudo pra fazer uma novinha. Sério! Tem gente que diz que alemão é que nem tatu: adora fazer um buraco! (((-:  

Cultura. A Alemanha exala cultura, tanto pela sua história tão importante dentro do contexto mundial, quanto pelo seu acervo de escritores, intelectuais, pintores e compositores inegualáveis. Para quem ama literatura o lugar é a Europa, inclusive a Alemanha. Se compra livros ótimos por preço de batata nos inúmeros sebos de livros e feirinhas culturais que acontecem de sempre em sempre por aqui. Até mesmo nas livrarias é possível comprar livros maravilhosos por preços mais maravilhosos ainda. Pechincha mesmo! Aqui só não é culto quem não quer, pois a cultura bate à sua porta e nem te cobra muito por isso. Até mendigo aqui  canta as óperas de Wagner. (((-:

Segurança. Sobre essa acho que nem preciso dizer, né!? Já comentei num outro post que seria a ÚNICA coisa que me faria decidir ficar por aqui de tão maravilhoso que é poder ir e vir sem medo de não voltar… Maaaaaas andei ouvindo por ai que a coisa já não está mais tão “cor-de-rosa” assim, logo podem ficar despreocupados porque parece que esse fator que me faria ficar está perdendo credibilidade… (((-:

Amor pelo Sol. Eu que sempre amei o Sol, aqui estou ganhando motivos pra amar ainda mais, pois aqui ele é coisa rara minha gente… Uma tristeza só! Agora me arrependo dos dias ensolarados que eu ficava dormindo de dia pra aproveitar a balada a noite. Aqui eles aproveitam cada raio de Sol como se fosse o último. É só sair um solzinho que as praças ficam lotadas de gente deitada na grama jogando papo fora, fazendo piquiniqui ou simplesmente fazendo um top-less básico e muitas vezes assustador… (((-:

Viajar. O alemão é o povo que mais viaja no mundo e eu que não ia perder essa boquinha também. Viajar quando se mora na Alemanha é relativamente fácil e barato, principalmente quando seu marido ganha em euro e não mais em real. (((-:  As distâncias entre diferentes países é algo assustador para um brasileiro, acostumado com as mesmas distâncias entre cidades do Brasil e, mais, acostumado a falar português mesmo depois de percorrer 3 mil kilômetros. Aqui a oferta de albergues da juventude (ou velhitude) é gigantesca e a qualidade destes é bem superior à dos albergues brasucas. Tem vezes que vale mais a pena ficar num albergue do que num hotel por aqui. Outra coisa impressionante também é a oferta de casas que você pode alugar para passar uma temporada nas montanhas. Sai até mais barato do que o albergue e você se sente realmente “em casa” de tão bem equipadas que são. Tem também um sistema de “caronas” que funciona por aqui. É super curioso. Suponha que você tenha que ir pra Munique amanhã e more em Stuttgart. Você entra no site e procura “alguém” que você não conhece que também sairá de Stuttgart em direção à Munique e depois entra em contato com este desconhecido e divide todos custos da viagem com ele. Consegue imaginar algo assim no Brasil !?!!??! Nem eu.

Interculturalidade. Melhor do que ter a oportunidade de conhecer uma cultura diferente da nossa é conhecer várias! E eu tive essa sorte… Através do curso de alemão que conclui após um ano de labuta diária, conheci diferentes pessoas que vieram de diferentes países e, logo, cultura. Algo sem adjetivos pra definir! Durante o curso sempre discutíamos sobre diversos temas que integram nossa vida, desde comida até guerras e valores. Através destas discussões conheci um pouco de cada um daqueles países através da visão de um de seus cidadões. Após essa experiência consigo entender que todos seres humanos, independente de onde vem, são iguais. Sofremos pelas mesmas coisas, sentimos saudades, amamos, tememos, sorrimos e oramos por um mundo melhor… não importando qual sua língua materna ou qual seu prato predileto… somos todos humanos… somos todos mortais… Isso foi o mais importante que aprendi convivendo com esses seres humanos, e é isso que me fez olhar para cada um  com igualdade e descobrir assim grandes amizades. Outra situação de interculturalidade é muito frequente por aqui: muitas línguas diferentes da alemã sendo faladas em qualquer lugar que você esteja na Alemanha. E não e só por causa do turismo internacional não! A Alemanha recebeu no “recente” pós-guerra muita mão-de-obra estrangeira (principalmente turcos e italianos) e depois continuou recebendo gente de várias partes do mundo, seja pra trabalhar (gregos, por ex.), seja como asilo de guerra/conflitos (região dos Balcãs e Iraque, por ex.). Lembro que quando cheguei tinha a impressão de que todos me observavam por eu ser “diferente”, mas com o tempo fui percebendo que era mais fácil alguém loiro de olhos azuis chamar a atenção por aqui do que eu. Comecei a observar que em qualquer lugar que eu fosse ouvia, por exemplo, 3 ou 4 línguas diferentes do alemão e que aquelas pessoas pareciam morar aqui. Com o tempo fiquei sabendo que realmente tem muito estrangeiro e descendente de estrangeiro morando na Alemanha e que os alemães ainda tem muita dificuldade (entenda: preconceito) pra lidar com isso. A partir daí, pra azar da alemãozada, me senti em casa… (((-: 

Transformação. Quando alguém decide deixar seu país, seu trabalho, seus amigos e família DEVE ser para buscar algo melhor! Melhor aqui não é DINHEIRO necessariamente, mas sim algo que dentro dos valores dessa pessoa pode ser melhorado. Abdicar de tanta coisa importante não é fácil, todos sabemos, pois o tempo todo temos que fazer escolhas, através das quais sempre abrimos mão de algo de valor naquele momento. Acredito que foi esse pensamento que me fez decidir por este difícil caminho: o objetivo de ser melhor! Quando vim não sabia verdadeiramente como, mas sempre soube que em qualquer desafio a possibilidade de ganho é infinitamente maior do que a de perda, dependendo de como nós decidimos viver esse desafio. Hoje tenho certeza que foi a melhor decisão da minha vida. A possibilidade de viver em um país culturalmente tão distinto de nossa pátria é algo assustador e ao mesmo tempo apaixonante! É como ser criança novamente… tudo no começo é curioso, tudo é novo e misterioso: vc tem que aprender a se comunicar novamente, tem que entender como as pessoas aqui vivem e aceitar algumas diferenças de forma neutra, tem que acostumar seu estomago com o novo cardápio, tem que aceitar os olhares curiosos sobre você, afinal você é diferente para eles assim como eles são pra você e tem, antes de tudo, que entender que não é seu povo e por isso não pode esperar que aconteçam coisas que são óbvias pra você.

Aprendizado. Mais importante do que o que o dia-a-dia nos oferece por aqui é saber como lidar com tudo isso. Pois bem, se um dia alguém for viver uma situação parecida com a minha e me pedir um conselho, direi: “Olhe pra frente…”. Essa frase pra mim resume tudo! Quando uma pessoa deixa tanta coisa importante pra trás é porque ela acredita que através daquela escolha algo melhor virá, mas esse “algo” não estará no meio do caminho, estará sempre mais adiante e para chegar lá é preciso agarrar a vontade de chegar no seu destino e seguir em frente. Não permita-se, quando possível, pensar no que é agora ou no que tinha, pense no que pode alcançar e se concentre no que deve fazer para isso. Só! Todos estrangeiros que conheci aqui que vieram pra cá SÓ por causa do conjuge e não traçaram nenhum plano para si mesmos, falharam…. Falharam porque não estabeleceram metas pessoais, sem as quais não somos ninguém! Olhe para o horizonte e não para o chão onde pisa, pois o chão dá sensação de segurança nos convidando a permanecer naquele ponto…

Vivo como uma libélula…. vivo o dia de hoje como se fosse o último… e quando acordo a cada dia vejo que a “Maira” de ontem já não existe mais…

Páscoa congelante…

Maira on março 24th, 2008

 

A primeira páscoa na Alemanha a gente nunca vai esquecer… disso eu tenho certeza! Não… não foi porque eu ganhei um ovo de chocolate trufado suiço não, mas sim porque o coelhinho da páscoa foi soterrado por metros de neve por aqui…

Pois é… em pleno início de primavera por aqui a senhora neve resolveu aparecer e marcar forte e congelante presença, modificando completamente a páscoa dos alemães e dos que estão de passagem por aqui também. Essa situação cria inclusive um conflito sobre a cultura da páscoa com todas suas simbologias, pois o coelho, por exemplo, é um símbolo da páscoa justamente porque só reaparece na primavera devido ao bom tempo. Ao menos é o que diz uma das mil teorias que existem sobre os símbolos da páscoa. Sendo assim, nesta páscoa o coelhinho não tinha motivo nenhum pra aparecer, mas mesmo assim marcou presença, mostrando que, além de tudo, é um ser que está preparado para se adaptar às mudanças climáticas e continuar garantindo as tradições… (((-:

Eu particularmente só vejo sentido na páscoa quando penso em criança, pois, assim como o Natal, é um período para se incentivar a fantasia da criançada, mas fora isso só vejo comércio durante e depois. Durante, devido à venda de muuuuuitoo chocolate e tranqueirinhas de enfeite (que admito… são fofoooosss!) e depois onde quem lucra são as academias e vendedores de chá de emagrecimento pra mulherada!!! (((-:

Bom, tudo isso pra introduzir uma discussão sobre o “por quê” do coelho ser o símbolo da páscoa no mundo ocidental, o “por quê” do ovo e, mais, o “por quê” do ovo de chocolate. Eu mesma sozinha não teria me preocupado com isso, mas minha mãe que está por aqui veio com a seguinte e bem colocada questão pascal: “Por quê aqui eu ainda não vi ovos de chocolate no supermercado como no Brasil!? Eles não tem esse costume!?!?!”. Foi só ai que me toquei de que realmente eu não tinha visto aqueles corredores repletos de ovos de chocolate nos supermercados daqui, mas em compensação tem um monte de ovos de galinha pintados durante o ano todo.

Querem saber o que descobri!?!?!?! Descobri acima de tudo que não faz o menor sentido nós, brasileiros, termos o coelho como símbolo de páscoa. Essa é mais uma das mil influências européias que adotamos. O coelho é uma simbologia da páscoa européia, porque ele aparece no início da primavera após a época de hibernação, coincidindo com o período da páscoa. É como o anunciador de uma fase de “renovação”, o que casa perfeitamente com a idéia de “ressureição” de Jesus, concordam!? Já o ovo tem vários significados que inspiraram a relação entre ele e a páscoa. Um motivo é o fato do ovo ter sido usado durante o período feudal como uma “moeda” que pagava dívidas exatamente no período da páscoa. Depois o ovo começou a ser pintado e utilizado como um presente, mas provavelmente não era muito atrativo por ser apenas um ovo e, “talvez” por isso, alguém teve a idéia genial de comercializar a idéia com sabor de chocolate. Uma idéia que pegou e fez engordar à todos, inclusive a economia…

Quer saber mais!?!?!? Então leia nos links abaixo…

http://www.bernerartes.com.br/ideiasedicas/meditacao/pascoasimbolos.htm

http://www.dw-world.de/dw/article/0,9137,834694,00.html

Quando não dá mais…

Maira on março 16th, 2008

 

Existem dias em que só se quer chorar… Às vezes nem sabemos bem o por quê, mas as lágrimas vem lá do fundo e não há o que faça parar e muito menos palavras que consigam te explicar…

Também não adianta ninguém tentar pará-las, pois até piora… é como se a pessoa te dissesse: “Ei até que enfim você está chorando!”. Pois é um choro contido, doido… de dia, meses ou até anos…

Mas quando ele acaba você fica mais leve e percebe que quem chorou foi seu espírito, pois ele, pra variar, continua te pedindo mais e você, pra variar, continua dando menos do que realmente pode…

P.S.: não estou desistindo, muito menos reclamando. Isso é só um momento que se repete durante toda minha vida, um momento de “olhar pra dentro” e ver que posso ser mais…. a diferença é que hoje precisei escrever sobre ele, pra que muitos que passam pelo mesmo processo entendam: ISSO É HUMANO … a inquietação do espírito daqueles que se desafiam constantemente…

Pelada Européia – VfB 6 x 4 Bremen

Maira on março 13th, 2008

 

Fomos assistir mó pelada do futebol europeu! Assistimos a um jogo do time de Stuttgart (VfB) com um colega alemão e torcedor fiel. Aproveitamos para estrear o presente de casamento que a galera da MAHLE daqui deu pra gente: 2 cachecóis da torcida desse time. Esse time é bom, até porque tem 3 brasileiros desconhecidos no Brasil que jogam nele. Aliás, de alemão só mesmo o goleiro, é mole!?!?!?! Afff…

Mas apesar desse jogo representar a verdadeira pelada, valeu a pena! E mais, as diferenças observadas DEVEM ser aqui relatadas. Vamos por partes:

1- Se paga caro (quando se recebe e se pensa em reais);

2- Se vê família, criança, mulheres chiquerrérrimas e idosos no estádio se divertindo todos juntos;

3- Você pode tirar fotos e fazer filmes com as máquinas mais poderosas e caras do mundo e não se preocupar em ser roubado em nenhum momento;

4- A torcida oficial dos times é REALMENTE organizada! Ficam num lugar reservado no estádio e cantam, dançam ou fazem qualquer coisa através do comando de um ou dois caras que coordenam tudo através de um microfone. E eu que achava que veria pela primeira vez espontaneidade alemã… ilusão…

5- Os torcedores adversários podem e frequentemente sentam lado a lado. Disso não gostei… Eu lá toda feliz torcendo pelo VfB (time de Stuttgart) e o cara do meu lado mó triste vendo o Bremen perder! Quase consolei o cara… mas ia ficar meio estranho, né!? hehehe… Não tem nada a ver misturar as torcidas, pois posso te adorar mesmo você sendo palmeirense, mas quando a bola tá rolando você é o cara que eu quero ver mais longe de mim!!! Nossa…. nem consigo me imaginar sentando do lado de um palmeirense num jogo Corinthians x Palmeiras… afff…. até arrepia…. São Paulino!?!?! Até pode vai, afinal esses dai nem incomodam de tão “neutras”…kkkkkkkk

6- Nos intervalos e durante o jogo eles comem a indispensável “Bratwurtz” (salsicha) e passa um cara com um galão tipo mochila vendendo uma cerveja ruim pra daná em copos de plástico retornáveis. Você pode levar o copo pra casa de recordação ou devolver e reembolsar uma graninha, que é o valor do copo. Um luxo, né!?

7- Os seguranças ficam, como no Brasil, voltados para a torcida, mas com uma, aliás, duas grandes diferenças: ficam sentados e são em número beeeeeem reduzido. Por quê!? Bom, ficam sentados, porque alemão não costuma se desgastar durante o trabalho e são em menor número por provavelmente dois motivos: um porque a mão de obra aqui é carérrima e dois porque aqui o povo é mais civilizado, logo tem menos problemas de brigas na torcida dos caras. Ou seja, nada de emoção….

8- O estádio é FANTÁSTICO!!!! Paguei pau!!!! Sério… É lindo, organizado, limpo e com cobertura na área da arquibancada!!! Só faltava ter aquecimento e menos alemães!!! (que não seria nada ruim…hehehe)…

Enfim, foi uma experiência bacana que me fez repensar sobre o verdadeiro sentido de ser corinthiana…. Qual minha conclusão sobre isso!? Afff… Nenhuma… Time de futebol é algo que se escolhe pra substituir um terapeuta! Imagina como seria minha vida sem chorar, gritar, pular, brigar por causa do timão!?!?!?! Ah… fora que é algo muito importante pra se fazer amigos (ou inimigos) e pra se ter assunto quando os temas se esgotam… (((-:

Fotinhos…

Filminho 1 e Filminho 2

Casar pra quê!? …

Maira on março 10th, 2008

 

Hoje faz UM ANOOOOOOOOO que eu e o Rô decidimos dar esse passo tão medonho para uns e tão vital para outros. Vocês eu não sei, mas através do casamento eu descobri o quanto alguém pode se tornar infinitamente importante em nossas vidas, mesmo tendo que ficar com a gente vinculado a um contrato!!! (((-:

Afff…Sempre avacalho, né!? Na verdade o primeiro parágrafo precisa ser algo impactante, mas agora posso ser sincera… afinal já consegui trazer um pouco de perplexidade….hehehe.

Não acredito que estar casado é, obrigatoriamente, uma situação vinculada a um contrato. Acredito que nos sentimos casados, pois nossa energia está sempre em comunhão… nós sentimos que o outro nos traz aquilo que nos falta e mais, nos obriga a ser mais do que somos… nos obriga a dar passos que sem ele não teríamos motivação pra dar. O Rô foi o único homem nesse mundão de Deus a ser capaz de me “mover”. Foi só ao lado dele que vi a necessidade de ser melhor, que vi um horizonte repleto de possibilidades e sonhos conjuntos. Quando o conheci não tive dúvida nem por um instante: É ELE!!! Hoje!!?!?!? Hoje tenho mais certeza ainda… Lógico que em nenhum momento foi fácil… Nunca fomos perfeitos, nem como indivíduos e muito menos como casal… Até por que seria um saco viver uma história melosodramática de Schakespeare…

Somos normais, ou seja: dançamos, cantamos, xingamos, discordamos, mimamos, arrotamos, ficamos bêbados e damos vexame em público (essa parte é comigo), nos magoamos por nada, gargalhamos por absolutamente nada, etc. Isso é estar casado, é estar preparado para momentos maravilhosos, mas também para momentos onde a vontade é de “pedir pra descer”.  Mas temos que compreender que essa vontade é algo muitas vezes irracional e nunca levá-la tão a sério, pois se der força pra impulsividade perderá o maior tesouro que já possuiu: um amor de verdade.

Hoje aprendi a calar quando meu coração está machucado ou quando a ira me domina. Hoje entendi o quanto é importante ser sempre sincera, mas ponderada. Hoje compreendi que para que o casal dê certo, é necessário que se respeite mutuamente a individualidade de cada um. Não somos uma extensão do outro, não somos dependentes do outro… nós somos nós antes de mais nada e TEMOS que ser auto-suficientes para não sufocar a outra parte com cobranças descabidas e infantis. Se você decide dar um passo, SOMENTE VOCÊ é responsável por esse passo, independente do outro ter te incentivado ou não.

Casamento não é uma unidade, é uma trindade: EU, VOCÊ e NÓS.

Obrigada Rô! Obrigada por me ajudar a me fazer MULHER e a aceitar minha eterna criança, pois sabe que, acima de tudo, eu sempre continuarei vivendo como se estivesse brincando. E…. “NAO SE ESQUECA DO MAIS IMPORTANTE….”.

Agora pra fechar a comemoração deste ano MA-RA-VI-LHO-SO me declaro publicamente embriagada de amor! E com isso segue um trecho de uma música que me marcou no período em que estivemos longe, mas sempre perto aqui dentro:

“Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Agora e sempre mais
Eu só quero que você ouça
A canção que eu fiz pra dizer
Que eu te adoro cada vez mais
E que eu te quero sempre em paz

Tô com sintomas de saudade
Tô pensando em você
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem

Eu só quero que você caiba
No meu colo
Porque eu te adoro cada vez mais
Eu só quero que você siga
Para onde quiser
Que eu não vou ficar muito atrás…”

A SUA (MARISA MONTE)

 

Hoje terminei (antes que ele terminasse comigo) o curso de alemão. Exigiu de mim todas sinapses possíveis e muito mais, mas … VALEU A PENA !!!

Esse curso é oferecido por uma escola particular chamada IFA aqui em Stuttgart (www.ifa.de) – Alemanha. É um ano de curso intensivo, o que implica em estudar todos os dias da semana, 4 horas por dia. São ao todo 5 módulos e para passar de um nível para outro é OBRIGATÓRIO realizar testes que comprovem a habilidade adquirida. Nos primeiros 3 módulos (básico) são dois dias de prova: redação, gramática, compreensão de texto e conversação. Já nos dois últimos módulos (avançado) são três dias de prova: redação, compreensão auditiva, compreensão de texto, gramática e conversação. Além de tudo isso, a partir do 2 nível é obrigatória a apresentação de uma palestra em alemão em, no mínimo, 30 minutos. No último nível o bicho pega, pois trabalhamos diariamente com temas sócio-economicos e nossa palestra precisa obrigatoriamente ser relativa à estes assuntos, o que implica em necessariamente trabalhar com gráficos o tempo todo e aprender a descrevê-los. Em português faço isso tranquilamente, aliás, adoro gráficos, mas em alemão…afff… só por “Goethe”…

O curso, na verdade, exige muito mais do que 4 horas por dia, pois no começo, principalmente, é necessário que se gaste mais 3 horas em casa para fazer exercícios e reforçar o que aprendeu no dia. Cheguei uma semana atrasada e senti que não conseguiria me equiparar com o grupo. Chorava dia sim e dia também! O Rodrigo teve muita paciência pra me ajudar e pra não pirar de tanto que eu chorava e dizia que não conseguiria. Depois de estudar loucamente TODOS os dias consegui me sentir melhor e, com a formação de novas amizades,também melhorou muito. Mas nos dois últimos níveis virei uma preguiçosa de marca maior, pois praticamente não estudava nada em casa. No último então me arrastei dia após dia para a aula. É uma situação complicada, pois embora eu saiba que ainda tenho muito pra aprender, já consigo me virar com o que sei até agora e isso traz um certo comodismo. Além disso, estou de verdade cansada e me parece que não absorvo mais nada que deveria aprender durante as aulas. Simplesmente não tem mais espaço na minha “caixa-preta”. 

O que me ajudou muito no aprendizado foi assistir TV (mesmo que a maioria dos programas não me agradem) e me encontrar um dia por semana à noite com um grupinho de amigas do curso. Essa foi a melhor parte! Cada encontro íamos a um lugar diferente e falávamos sobre tudo e sobre todos. Nos sentíamos livres pra cometer erros e prontas para sermos corrigidas. Foi uma troca deliciosa que rendeu uma amizade de verdade, pois não só riamos absurdamente por vezes como choramos juntas também em momentos difíceis. O melhor é que através dessas amizades, pude perceber que palavras não são tão importantes para se fazer amigo… Sério! Logo no primeiro nível, sem falar alemão e arrastando no inglês, fiz 3 dessas amigas que ainda estão comigo e, sinceramente, não consigo mais me imaginar aqui sem elas… Até hoje nos faltam, lógico, palavras, mas sempre improvisamos através de gestos, desenhos, caretas e tudo que for possível mas, no fim, nos fazemos entender! É perfeito!!! Até acho que no começo era mais divertido conversar, porque precisávamos ser absurdamente criativas e descoladas, mas agora a gente se entende muito rápido e ai perde a emoção do jogo de “adivinha”… hehehe…

Bom, mas voltando ao curso (antes que eu vá parar em Jupiter)… Mesmo depois de descrever o que significa fazer um curso como esse por aqui e o que ele exige de cada um de seus estudantes, tem muita gente que acha pouco. Cansei de responder a pergunta: “O que você está fazendo agora!?”. E quando eu respondia: “Estou estudando alemão todos os dias, 4 horas por dia.”. Ouvia: “Mas só isso!!!?!?!?”.  O que eu pensava em responder nessas situações é muito simples de imaginar, não!? Com certeza não era nada educado… Mas enfim, talvez se eu não tivesse passado por isso, também pensaria que é muito pouco para se ocupar. Mas hoje eu AFIRMO: nunca fiquei tão cansada na minha vida! E olha que ralei muito em boa parte dela e nas 24 horas do dia…

O cansaço aqui é tanto físico quanto psicológico, mas com um agravante: você PRECISA aprender a se comunicar para poder se integrar na comunidade e poder realizar as coisas mais simples que existem na vida de uma pessoa, como, por exemplo, comprar um pão ou um remédio. Hoje tenho quase 30 e, quando cheguei, me sentia com 3 anos de idade. Isso te sufoca, pois não tem mais a paciência e a resignação de uma criança para poder dar os primeiros passos. É difícil aceitar que simplesmente não consegue fazer qualquer coisa sozinha, precisando sempre chamar alguém que fale alemão melhor do que você (o que nao é dificil de achar). O orgulho é o maior obstáculo que eu identifiquei no começo, mas graças a Deus identifiquei rápido e tratei de eliminar ele da minha vida. Foi o primeiro e mais importante passo que dei nesse aprendizado, podem acreditar.

Dado esse passo tudo vem mais naturalmente, apesar de sempre com dificuldade e muitas frustraçoes. Ontem mesmo fui com meu grupo e uma das professoras ao teatro. Me pergunte sobre o que era a trama… E eu respondo: não faço a menor idéia!!!! Consegui entender heroicamente quase 40% de tudo que foi apresentado, mas mesmo assim não entendi sobre o que era a bagacinha…. É ou não frustrante após um ano, pagar €11,- pra não entender bulhufas!!?!? Enfim, por mais que se estude é impossível em um ano sair satisfeita de verdade do curso, pois adulto nao tem paciência e quando o adulto é, pra piorar, muito auto-crítico, tudo fica mais difícil. Hoje sinto que estou apenas começando no alemão e, também, na Alemanha. É agora no dia-a-dia, tentando me virar sozinha de verdade com a língua e com as diferenças culturais, que vou saber até onde posso e consigo ir.

Essa experiência, como se pode perceber, traz muito mais do que apenas a proficiência numa nova língua. Tive a oportunidade de ter contato não só com alemães, mas também, e muito mais, com estrangeiros do mundo inteiro, inclusive de países ou comunidades independentes que eu nem sabia que existiam, como Papa Nova Guiné e País Basco. Como precisamos ganhar vocábulário em diversas áreas, discutimos sobre absolutamente TUDO (ao menos tentamos) e isso nos faz entrar, estando aqui na Alemanha, em cada um desses países e suas culturas. É apaixonante e excitante viver isso! É como se cada dia você estivesse em outro país e, com isso, seus valores e referencias mudam muitas vezes radicalmente. Ao mesmo tempo tive a oportunidade de mostrar um Brasil que poucos conhecem e isso, pra mim, foi muito importante. Mostrar que pensamos, que lemos, que sabemos e que não somos mais apenas um “país descoberto”, somos já “descobridores”. 

Mas nem tudo são flores… Foi muito dificil de lidar com a arrogância européia que é natural desse povo, ou seja, não os culpo por isso. Eles são criados ouvindo todos ao seu redor dizendo que são os melhores do mundo, logo agem de tal forma inconscientemente. Demorei pra adquirir esse pensamento “humanitário”, mas agora me sinto muito melhor entendendo essa postura como um fruto histórico e cultural.

Enfim, um ciclo se encerra agora, mas sei que muitos outros se iniciarão a partir deste ponto e estou pronta pra eles! Estou cansada, mas satisfeita com o resultado. Estou feliz com o término do curso pela conquista que isso representa, mas triste por não ver mais meus novos colegas com tanta frequência. Mas acima de tudo estou feliz por ter essa oportunidade e alguém com quem compartilha-la… o Rô! Sem ele, sua paciência, seu incentivo e dedicação eu não teria passado do primeiro mês.. Tenho certeza que não… Além disso agradeço à todos que me “empurraram” nos momentos que eu dizia: “Eu não aguento mais.” E, lógico, a Deus por ter me abençoado não só com a oportunidade, mas também com todas pessoas que surgiram no meio da minha caminhada até agora.

Sim, não há dúvida, é um caminho extremamente difícil, mas a recompensa é também incalculável !!! Por exemplo, agora já me sinto com 5 anos de idade!!! Pra quem chegou com 3, tá é Ó-TE-MO!!!!!!!! (((-:

Avante e delinquente!!! Se é pra viver que seja pra valer!!!!

Agora, só pra variar… fotooooooooooooosssssss!!!!

Pedaaaalaaa alemãozinho!!!

Maira on março 3rd, 2008

A cada dia descubro coisas inacreditáveis por aqui, um delas é sobre o que uma crianca deve fazer para poder andar de bicicleta em vias públicas desacompanhada.

Nada mais, nada menos do que ter uma “Carteira de Habilitacao para Bicicleta”. Isso mesmo! Tem aula preparatória prática e teórica e, lógico, uma prova pra testar os conhecimentos adquiridos pelas criancas. E, tem mais, as aulas sao ministradas por ninguem menos do que um policial. Assim até eu aprendo… que meda!

Mas esse documento só é necessario para criancas abaixo dos 12, pois após os 12 anos todas criancas, mesmo sem ter realizado essa prova, já podem circular sem os pais livremente.

No comeco achei comico e exagerado, mas depois pensando bem e vendo as estatisticas de acidentes envolvendo ciclistas por aqui, mudei de idéia radicalmente. Com essa acao o governo reduziu o número de acidentes drasticamente, pois todos sao conscientizados e treinados desde pequenininhos.

Lógico que é triste ver que os alemaozinhos, desde quando nascem, já sao atolados em regras, regras e regras… mas, enfim, tem também seu lado bom. Nós, pelo contrário, somos poupados de regras, mas temos cada vez mais problemas por falta de disciplina e conhecimentos básicos do povo brasileiro.

Sendo assim, admito: Ponto pros branquelos!!!

 

Nos últimos dias assisti enfim os tao aclamados filmes brasileiros “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus”. Gostei. Sério… Achei as duas producoes muito boas (lembrando que sou leiga no quesito “fazer cinema”) e as realidades muito bem retratadas. Nada contra isso, mas no fim fiquei triste, pois o Brasil nao é só isso, mas é praticamente só isso que o exterior conhece através de nossas producoes cinematográficas. O “Tropa de Elite” ganhou aqui em Berlim o cobicado premio europeu “Urso de Ouro”, mas infelizmente minha preocupacao superou meu orgulho. Preferia que ganhássemos com algo menos negativamente chocante, se é que é possível.

Nao sou do ramo (infelizmente), logo me sinto mais uma vez impotente para mudar esse rumo que leva nosso cinema nacional. Antigamente era só putaria, agora é só tiroteio, corrupcao e pobreza que sao mostrados. E nossa história tao rica de detalhes que muitos desconhecem? Nao merece ser retratada num filme de cinema? Porque a Globo investe tanto em minisséries ótimas sobre períodos e eventos históricos tao importantes para todos nós, mas nao faz um filme sobre esses, para que esse seja exposto no mercado internacional como prova de que sabemos ver além do nosso “lado negro”!?

Poderíamos retratar a INVASAO do Brasil pelos Portugueses por exemplo. Poderíamos mostrar as tristes consequencias que esse ato trouxe para nosso povo ao invés de ficar gastando em homenagens à chegada da corte portuguesa no Brasil. E partindo desse ponto, mostrar o processo de escravidao no Brasil e como a abolicao dela foi decisiva para a presente pobreza, da qual participam em boa parte descendentes afro-brasileiros. E, indo mais adiante, vincular tudo isso à visao marginalizada dos negros que existe ainda hoje no Brasil e no mundo.

Poderíamos retratar os desbravadores Bandeirantes, Tiradentes, a construcao da Transamazonica. Ou até ídolos e ícones antigos ou atuais e suas tragetórias, como por exemplo: Airton Senna, Santos Dummont, Zumbi dos Palmares e etc. Até a história de Lula seria interessante, pois bem ou mal, é uma história mundialmente nova, um homem popular tomar o poder e manter-se nele por tanto tempo.

Poderíamos retratar a imigracao nordestina e os motivos que levam essas pessoas a irem, por exemplo, pra Sao Paulo buscar uma vida mais digna e com maiores oportunidades. Aproveitando esse tema poderia se mostrar um outro lado da favela, como os programas sociais que ali nascem e geram bons frutos.

Poderíamos retratar a vida no sertao brasileiro, entrando no dia-a-dia daquelas pessoas que, apesar de estarem avessas à modernidade, sao felizes e tem muito pra ensinar para os magistrados das zonas modernas.

Poderíamos “entrar” de verdade na regiao amazonica e mostrar que nao estamos sozinhos no processo de degradacao constante. Se há tanto desmatamento e extincao de especies é porque a procura é alta e, todos sabem, que a procura por animais exóticos e peles é extremamente alta pelos estrangeiros e nao por brasileiros. Será que eles também sabem quantas plantas foram ROUBADAS por estrangeiros para promover patentes internacionais de nossas riquezas!?

Poderíamos retratar o período de imigracao dos europeus, dos japoneses, dos chineses e agora mais fortemente dos coreanos para o Brasil. Mostrando assim como vivem esses imigrantes que decidiram nunca mais voltar para seus países de origem, pois se apaixonaram pelo “inseguro, pobre e degenerado” Brasil. Por que apesar de tudo isso tantos deixam países do primeiro mundo para viver no Brasil? Com certeza nao é porque eles amam a emocao de fugir de ladrao!

Muda Brasil e mostra, de verdade, sua cara! Se nao conseguimos mudar de dentro pra fora, acho que está na hora de apelar para o sentido inverso… Talvez se mostrarmos um Brasil melhor para o exterior e eles comecarem a nos aplaudir pelo que temos também de bom, ai sim acredito que cada cidadao brasileiro erguerá a cabeca e verá além de seus próprios passos e fracassos…