jul
23
Alemanha – Allgäu Alpes (Trekking)

Sem dúvida tá no “Top 5″!

Um trekking maravilhoso e exigente nos Alpes na região da baviera (extremo Sul da Alemanha – divisa com Áustria), conhecida como Allgäu.

Paisagens ímpares com direito até a cachoeiras por todo trajeto, travessia na neve (em ângulos que te obrigam a ir escorregando ladeira a baixo), pirambeiras que desafiam qualquer mochileiro, montanhas pontiagudas e ainda parcialmente cobertas por gelo e flores minúsculas e graciosas que tornam a paisagem muito mais colorida.  

Se você mora na Alemanha ou proximidades ou se mora bem longe, mas dispensaria qualquer museu/igreja/castelo europeu pra fazer um trekking nas alturas, não pode deixar de visitar a região do Allgäu. Até essa viagem nada na Alemanha tinha me surpreendido tanto positivamente quanto essa trilha. Simplesmente porque AMO natureza e sentia falta de algo mais selvagem por aqui. Mas SIIIIIM eles tem o que oferecer nessa área também! Acredite!

Foi uma experiência extremamente enriquecedora, pois além do trekking maravilhoso, também tivemos a oportunidade de conviver 3 dias com mais 8 alemães jovens. Pessoas bem bacanas aliás. Lógico que não foi divertido como seria com brasileiros, mas rolou. Pessoas tranquilas, sem crises e bem dispostas a ajudar você e se integrar. Foi interessante observar que ganhamos uns pontinhos após esses dias com o grupo, pois quando nos conhecemos na sexta-feira todos nos deram a mão e quando nos despedimos no domingo nos deram dois beijinhos cada um e até, pasmem, nos abraçaram!!! Nunca pensei que um trekking com alemães rendesse tanto… (((-:

Maaaas voltando ao trekking tenho que dizer que não é algo pra amadores. Saímos de Stuttgart sexta-feira aproximadamente meio-dia e percorremos 200km de carro até Oberstdorf, o ponto de partida da trilha que duraria 2 dias. Partimos de Oberstdorf e percorremos ainda na sexta-feira uma subida pra quebrar o peão por aprox. 2 horas e meia até alcancar a primeira cabana (Kemptner Hütte- 1869) situada a 1846 metros de altitude, onde pernoitamos de sexta pra sábado.

Chegando na cabana tem um lugar logo na entrada onde todos mochileiros deixam suas botas e sticks (cajado moderno). Achei bem interessante e fiquei imaginando isso no Brasil. Você teria coragem de deixar sua bota de trekking carissíma a noite toda num lugar onde todos tem acesso???? É nessas situacoes que entendo porque não somos um país de primeiro mundo. (((-:

A cabana era muito fofa e aconchegante, faltando apenas um detalhe: água quente. A água estava congelante, ou seja, nada de banho. Para alemães isso é normal, mas para nós, naquela situação, um banho quente era tudo que precisávamos após subir subir e subir por quase 3 horas. Foi nesse momento, ao perceber que nao seria possível tomar aqueeeeele banho que entendemos a necessidade que os alemaes tem de comprar toalhinha de mao. Já está na nossa lista de compras para o próximo trekking. (((-:

Antes de chegar nessa cabana, imaginei que era tipo albergue, ou seja, com beliches. Mas nao. Você dorme lado a lado com as pessoas num leito onde cabem vários mochileiros. Por sorte dormi encostada na parede e do lado do Rodrigo, mas imagina dormir lado a lado com estranhos e acordar com o bafo deles na sua cara. Afff…. Saudades do beliche.

Acordamos e quando olhamos pela janelinha da cabana o céu estava incrivelmente azul e o Sol nos abençoando mais uma vez. Inacreditável, pois durante a noite choveu tanto que pensei que o teto não ia aguentar. Amém. Saímos bem cedinho e partimos para o próximo destino a 2048 metros de altitude, a cabana “Waltenberger Haus”. Caminhamos aproximadamente 4 horas, sendo que apenas alguns de nós usou uma hora para subir até o pico mais alto do trekking, o Bockkarkopf (2608m).

Chegando no cume aconteceu algo que é preciso registrar. Quando alguém no Brasil alcança o pico de uma montanha costuma-se vibrar, gritar (“só o cume interessa!!!”), todos se abraçam, pulam, se beijam ou até mesmo “se atracam”, mas estamos na Alemanha e chegamos ao pico com alemães. Chegando no pico eles me deram a mão de maneira bem fria e solene e disseram: “xxxxxx” (….). Fiquei olhando pra cada um que me dava a mão com cara de paisagem e no fim perguntei o que era “aquilo” e ai o Rodrigo me explicou que eles estavam comemorando. Diferenças. Enfim. Ainda bem que existem, caso contrário eu perderia a oportunidade de escrever esse parágrafo. (((-:

A pior parte da trilha pra mim, acreditem, veio após o pico mais alto que alcançamos no trajeto. Era hora de descer. Eu disse DESCER de verdade, numa inclinação de quase 90 graus (exageraaada..) com direito a neve e pedrinhas soltas por todo o trajeto da descida. Os alemães mais espertos e mais familiarizados com neve vestiram algo na região do quadril e foram de “skibunda” ladeira à baixo. Nós brasileiros sem a menor afinidade com neve decidimos ir descendo pelas pedrinhas quando fosse possível, mas, sinceramente, preferia o “skibunda”.

Sai surfando e caindo nas pedrinhas, fora que em um dos trechos rolou um boliche entre eu e o Rodrigo. Eu era a bola e ele o pino. (((-: Adivinha quem se deu mal nessa? O pino!!! Tadinho. Ficou todo machucado, pois eu escorreguei no primeiro trecho de neve e ele estava na minha frente tentando se equilibrar até chegar nas pedrinhas. Saímos os dois escorregando sem freio até as pedras e ele detonou o joelho tadinho! Eu, pra variar, levantei me matando de rir e continuei… caindo até o final! (((-:

Depois de cai, levanta, cai e cai chegamos na cabana (Waltenberger Haus – 1875) a 2048m de altitude. A paisagem daquele lugar faz a gente esquecer qualquer tombo! Uma cabana no meio do tudo, cercada de montanhas e natureza. Um lugar onde todos as coisas necessárias chegam ou de helicóptero ou chegam através de mochileiros que percorrem um longo e difícil caminho carregando aprox. 30kg em suas mochilas. Algo inacreditável quando você conhece a trilha.

A cabana não oferece muito conforto, o que é compreensível considerando o quanto é difícil manter um lugar como esse, totalmente distante e com um caminho só acessível por mochileiros ou pelos ares. Bom, que ficamos sem tomar banho pelo segundo dia consecutivo acredito que não é nenhuma novidade, mas que dormimos um colado no outro por falta de espaço, isso sim é algo que não vamos esquecer nunca, até porque não dormimos. O espaço era tão limitado que dava agonia, mas tenho certeza que alguns espertinhos dormiram “muito bem, obrigado”.

Na cabana avistamos os primeiros animais “selvagens” da viagem. Mas segundo o Rodrigo eles sao criados pelo dono da cabana e pagos pra aparecer todos os dias umas 19 horas para serem fotografados. (((-:

 

Após tirarmos fotos dos chifrudos, ficamos com a galera até a hora de dormir. É bem engracado observar a diferenca entre alemaes e brasileiros que viajam em turma. Os alemaes se sentam na mesa todos juntos, pedem algo pra beber, pegam um livro ou uma revista e ficam ali, sentados juntos como se fossem conversar, lendo sozinhos. Os brasileiros ficam falando besteira, rindo, bebendo pra daná ou até mesmo filosofando sobre o fim do mundo juntos. Ah… e brasileiros jogam, normalmente, truco enquanto os alemaes jovens jogam Super Trumfo de carros ou UNO. Sei que eu e o Rodrigo ficamos lá esperando pintar uma conversa interessante, mas no fim avistamos nossa salvacao: um violao. Sendo assim sentamos em outra mesa e ficamos tocando e cantando MPB sozinhos.

Após uma noite nao dormida, voltamos. Foi uma descida de quase 3 horas com várias travessias em cachoeiras gigantes e com muita água, pois só chove por aqui nesse “bendito” verao europeu. Tinha umas pirambeiras que se neguinha escorregasse já era.

E no meio de tanta travessia de cachoeiras, neve e agregados decidimos adquirir um par de “sticks” pra fazer esses trekkings. No Brasil sempre encontrávamos um cajado no meio do caminho pra ajudar nessas horas, mas aqui nao se encontra cajado dando sopa e até por isso acho que eles decidiram industrializar a bagacinha. Agora entendemos e vamos aderir. Mas SÓ para trilhas em montanhas, pois acho a maior marmota do mundo esse tal de “Nordic Walking”. Sabem o que é isso? É uma modalidade de caminhada, onde se usa sticks para exercitar os bracos durante a caminhada. Um dia discorro sobre o assunto.

Nesse momento fui descoberta aderindo ao movimento. Afff… Ainda bem que nao tenho o menor problema em mudar de opiniao. (((-:

Ups… já ia esquecendo a melhor parte: a vista do banheiro. Já se imaginou “naquele momento” com essa paisagem!?!??! Só Deus mesmo!!!

E pra fechar, ai vai duas fotinhos da gente pra nossas famílias verem que estamos fortinhos e saudáveis!

Mais fotos? Aqui !!!!



jul
16
Sem trabalho e com dinheiro

Sonho? Definitivamente não era o meu.

Estou vivendo essa situação. Não tenho trabalho, mas tenho dinheiro pra ir às compras, fazer cursos e viajar. Não, não tenho uma árvore de dinheiro e nem tampouco ganho dinheiro sorrindo (senão estaria rica!). Meu marido trabalha (e muito) pra nos manter e eu me esforço o máximo para fazer valer a pena pra ele e, lógico, pra mim.

Muitos olham essa situação como um paraíso, mas todos nós sabemos que o paraíso não existe, certo? Seria, caso eu tivesse desejado sempre ficar em casa e levar uma vida de dedicação total a casa e a família. E essa não sou eu. Não tenho ABSOLUTAMENTE nada contra mulheres que tem essa decisão. Hoje até as admiro, pois não acho que seja uma tarefa fácil. Mas pra mim está sendo bem difícil lidar com a falta de um emprego.

Ao mesmo tempo me sinto uma estúpida por não aceitar essa situacão “temporária” e aproveitar meu tempo livre para fazer algo POR MIM. Estou fazendo, mas posso e devo fazer muito mais. Pela primeira vez vejo claramente como é difícil TRABALHAR POR VOCÊ e PRA VOCÊ. Fazemos isso a vida toda pelos outros e quando Deus nos dá a oportunidade de ouro… simplesmente não sabemos o que fazer com ela e acabamos por desperdiçá-la. Isso é ser HUMANO.

Quando estava trabalhando sonhava com o dia em que eu teria a oportunidade de fazer as coisas que eu realmente gosto de fazer por MIM. Ela chegou, mas eu estou reclamando por não ter um trabalho pra poder fazer algo pela SOCIEDADE. E, acreditem, vocês não fariam melhor. Todos me dizem: “Ahhhh se eu tivesse essa oportunidade que você está tendo eu ia me acabar de tanto aproveitar meu tempo livre!”. Utopia. O sonho muitas vezes só é doce enquanto é sonho. Quando ele se torna real você vive tanto a parte boa quanto a parte ruim. Isso é REALIDADE.

Enfim, estou escrevendo sobre essa avalanche de sentimentos somente hoje, pois hoje estou enterrando uma semana dura e triste. Estou enterrando todos pensamentos negativos e auto-destrutivos que tive. Estou enterrando essa necessidade humana de ser somente útil para os outros. Acabou.

Re-Começar. Começo aqui uma nova fase, onde EU sou importante o suficiente pra erguer a cabeça e me satisfazer por ter por onde e pra onde caminhar. Livre. Começo aqui a agradecer (muito mais) todos os dias pela oportunidade e começo aqui a alcançar meus 3.0 com maturidade e atitude. Acreditem: nunca foi tão difícil continuar.

Dias mais difíceis virão e está aqui, nesse momento, a minha chance de ser melhor. E é isso que estou fazendo agora.

Agradeça pelo o que têm, pois se for esperar algo “perfeito” acontecer vai terminar frustrado e infeliz. A perfeiçao não existe no mundo onde vivemos. Ela é o início de um novo caminho que não pertence a quem precisa de ar para viver. É por isso que a buscamos. É o que nos impulsiona até o nosso último suspiro.

A vida não é perfeita e nunca será, mas pode e deve ser vivida com plenitude e alegria. Por isso comece agora, pois ela é longa o suficiente pra te surpreender até o fim.



jul
15
Catolicismo em xeque-mate

Um dia minha mae me disse que conversou com um estudioso sobre religiao e esse apresentou a ela revelacoes sobre o que anda rolando nos bastidores do mundo religioso. Ele se referia a descoberta do “Evangelho segundo Judas” encontrado na década de 70 no Egito, mas que só foi “comercializado” para o meio científico em 2000.

Após esse longo período foi restaurado e estudado recentemente por uma equipe internacional de pesquisadores.  Segundo testes de datacao por carbono feitos na Universidade do Arizona, o códice foi feito entre 220 e 340 d.C. É uma cópia em língua copta dos textos originais escritos em grego no 2o século da Era Crista. Sobraram 62 páginas, de uma estimativa de 120 a 150. Do Evangelho de Judas, 26 páginas foram identificadas.

Mais uma vez a igreja católica é colocada em xeque e mais uma vez tenho a certeza de que essa manipulacao logo acabará. Acredito sim que Cristo foi um exemplo, mas tenho certeza de que a igreja utilizou o poder da oracao para manipular seus fiéis e se tornar poderosa principalmente no âmbito politico em tempos idos. Nao sou contra quem segue a Bíblia (mesmo sabendo que ela nao representa a verdade), mas sou contra a forma pela qual o caminho a ser seguido foi feito.

Por isso continuo aqui, apenas orando para uma forca superior “sem nome” e buscando me informar sobre toda a forma de verdade para nao “pecar” pela ignorância.

Leia mais sobre essa revelacao nessa reportagem da super interessante de 2006. Fantástico! Em pensar que isso é só a ponta do iceberg.

http://super.abril.com.br/superarquivo/2006/conteudo_443887.shtml

A matéria é gigante, assim como o nariz dos comandantes da igreja católica, por isso vou só citar os trechos mais interessantes que achei.

Por dois milênios, Judas foi apontado como o maior traidor de Jesus. Agora, documentos sugerem que ele pode ser sido o mais fiel de seus seguidores.”

A revelação faz parte de um manuscrito redigido há cerca de 1,7 mil anos e que passou a maior parte desse tempo perdido em uma caverna no deserto egípcio. Escrito em copta, o idioma usado na redação de manuscritos no Egito antigo, o texto não deixa qualquer dúvida sobre os segredos que promete revelar.”

Não que o Evangelho de Judas fosse exatamente um desconhecido. Estudiosos da religião já sabiam de sua existência por causa de uma carta escrita em 178 d.C. pelo então bispo de Lyon, santo Irineu – o homem que decidiu que apenas os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João entrariam na Bíblia. Em seu texto, Irineu citava nominalmente o Evangelho de Judas em meio a outros textos que o desagradavam pelo conteúdo “herético”. ”

“Nesse grupo, alguns tinham papéis definidos. Segundo a Bíblia, cabia a Judas a administração do dinheiro recolhido durante as pregações – uma função que sugere a confiança de Jesus (mas que também pode nunca ter existido, sendo acrescentada apenas para reforçar sua afeição ao dinheiro). A verba arrecadada cobria o custo das viagens. “Jesus foi um líder itinerante”, diz Cornelli. ”

“Assim, é muito provável que cada um dos apóstolos tivesse um grupo próprio de seguidores. Afinal, apesar de falarem em nome de Jesus, eram eles que entravam em contato direto com as pessoas comuns. Davam conselhos, pregavam, supostamente operavam milagres. E, obviamente, faziam isso a seu modo: quem ouvia Pedro tinha uma visão diferente da dos seguidores de João ou Tomé sobre os ensinamentos de Cristo. Mais tarde, essas peregrinações individuais serviriam como a semente que germinaria diversos cristianismos diferentes nos séculos 1 e 2 d.C. – é isso mesmo que você leu, diversos cristianismos. Antes, porém, a nova religião precisaria assistir a seu episódio mais emblemático.”

“Em 26 páginas, o documento narra os episódios ocorridos durante a semana que antecede a Páscoa judaica no ano de 33 d.C. (os dias imediatamente anteriores à prisão de Jesus) e mostra uma versão completamente diferente da que tínhamos acesso até hoje. No relato, Judas é descrito como o discípulo mais próximo de Jesus, o único capaz de compreender a essência de seus ensinamentos. A profundidade da relação entre os dois aparece, por exemplo, numa passagem em que Cristo desafia os apóstolos ao zombar do comportamento deles. Rindo, acusa-os de não rezar por vontade própria, mas apenas por acreditarem que assim agradariam a Deus. Enquanto os apóstolos, ofendidos com a bronca levada, “começaram a blasfemar contra Jesus em seus corações” (nas palavras do evangelho), Judas mostra ser o único a entender as palavras do líder. Impressionado, Jesus o chama em particular para dizer: “Se afaste dos outros e eu lhe contarei os mistérios do Reino. Você pode entendê-los, mas vai sofrer por isso”.

“E quais foram os segredos revelados? Nos manuscritos, Jesus fala sobre um mundo superior, habitado pelo verdadeiro Deus, um espírito bom “que nunca foi chamado de nenhum nome” e que deu origem a uma linhagem de anjos de onde saiu o criador da Terra. Adorado pelos judeus e citado no Antigo Testamento, este seria um Deus inferior, cuja criação aprisiona o espírito do homem. Para nos salvar e encontrar o Deus bom, precisaríamos buscar nossa porção divina interior e nos libertar desse mundo. Por fim, Jesus revela que Judas será superior a todos os homens porque “sacrificará o homem que me veste”. E revela a missão do discípulo: matar a parte física para livrar o mestre de seu corpo, ou seja, do reino inferior que aprisionava o espírito divino de Jesus. Judas cumpre à risca as ordens: imediatamente procura os sacerdotes para denunciar o líder. Pelo serviço, embolsou algum dinheiro – o valor não é especificado. Nesse momento, o evangelho acaba, abruptamente.”

“Se enquanto Jesus estava vivo cada discípulo já contava a história ao seu modo, depois da crucificação as versões se multiplicaram. Quando os apóstolos morreram sem deixar instruções por escrito, então, já não havia como esclarecer dúvidas. Circulavam centenas de versões para os mesmos fatos. Cristo era divino ou não? Divino por inteiro ou só parcialmente? Quem, afinal de contas, era Deus? Como existia mais de uma resposta para a mesma pergunta, em poucos anos o tronco original do cristianismo – as idéias e relatos de Jesus – se ramificou em diversos galhos. Os ebonitas, por exemplo, pregavam obediência às leis do judaísmo. Os marcionistas diziam que o deus judaico não era o Deus do Novo Testamento. Fala-se que os carpocracianos faziam troca de casais (tudo bem santo e em nome de Deus, é claro). Resultado: na metade do século 1, apenas 20 anos após a morte de Jesus, o cristianismo era formado por diversas correntes, muitas contraditórias entre si. E tinha, pelo menos, 3 dezenas de evangelhos diferentes – os textos que narram a passagem de Cristo pela Terra. Destes, apenas os de Marcos, Mateus, Lucas e João acabaram reconhecidos pela doutrina da Igreja. Os demais, acusados de propagar heresias, jamais foram acolhidos pelas autoridades católicas. Os textos excluídos eram atribuídos a Maria Madalena, Judas, Tomé, Pedro e, agora se sabe, até a Judas. “A maior importância na descoberta desse novo manuscrito é comprovar a existência de uma diversidade de opiniões no cristianismo primitivo”, diz Marvin Meyer, especialista em Bíblia da Universidade Chapman, nos EUA, e coordenador da tradução do Evangelho de Judas.”

“O Evangelho de Judas foi redigido em alguma comunidade gnóstica, um desses galhos do cristianismo primitivo. A suposição pode ser confirmada por documentos históricos. Afinal, o próprio Irineu, perto de 180 d.C., identificou os autores do evangelho como gnósticos. Ao contrário do que muitos afirmam, esse não eram um ramo dissidente do cristianismo. Pelo contrário: gnósticos eram bastante influentes nos primeiros séculos após a crucificação, pregando que o homem conseguiria a salvação se conhecesse Deus – gnosis, em grego, significa conhecimento. Lembra-se do motivo pelo qual Jesus disse a Judas que precisava morrer? É exatamente disso que estamos falando. Gnósticos acreditavam que os homens se libertariam da prisão do corpo quando conhecessem a parcela divina que tinham dentro de si. “Eles diziam que o mundo foi criado por um outro Deus, mau, e que o corpo material era uma prisão do espírito”, afirma o frei franciscano Jacir Freitas de Faria, professor do Instituto São Tomás de Aquino, em Belo Horizonte, e um dos principais estudiosos dos gnósticos no Brasil. Não é à toa, portanto, que o Evangelho de Judas é considerado pelos pesquisadores como fortemente influenciado pelo pensamento gnóstico. “Esse evangelho mostra um modo completamente diferente de entender Deus, o mundo, Cristo, a salvação e a existência humana”, completa. Esse modo reflete o pensamento dos gnósticos.”

“A dúvida que fica é como um grupo de gnósticos concluiu que o suposto vilão é o verdadeiro mocinho da história. Na Bíblia, há duas versões para o destino de Judas. O Evangelho de Mateus conta que, tomado de remorso, ele devolveu as 30 moedas que havia recebido pela traição e se enforcou. Mas, segundo o Atos dos Apóstolos, Judas comprou um terreno com o dinheiro e, “tombando para a frente, arrebentou-se pelo meio, e todas as entranhas se derramaram”. “As versões da morte de Judas narradas na Bíblia são inconciliáveis, mas são os únicos relatos que temos”, afirma Chevitarese.

“Mas, se Judas foi culpado pela traição e morreu tão cedo, como reuniu seguidores para escreverem seu evangelho? O professor Stephen Emmel formula duas hipóteses: ou Judas teve tempo de contar suas conversas com Cristo antes de se matar; ou não morreu tão cedo. “Quem escreveu o texto de Judas pensava que ele era um discípulo muito importante”, diz. “Acreditava que alguns ensinamentos especiais foram transmitidos por Cristo a Judas. E apenas a ele.” ”

“No 1º século do cristianismo, o excesso de versões para as palavras de Jesus não era um problema. Mas, em 178 d.C., o bispo Irineu, de Lyon, resolveu unificar a Igreja. Queria fortalecer o cristianismo e controlar melhor os fiéis. Determinou, então, que apenas 4 evangelhos contavam a história verdadeira do filho de Deus e, portanto, deveriam ser os únicos seguidos pelos cristãos. O de Judas foi descartado. Os critérios que orientaram a escolha de Irineu foram subjetivos. O primeiro, dizem historiadores, foi a facilidade de compreensão, já que os textos precisariam ser lidos em voz alta para os fiéis – afinal, a maioria era analfabeta. O segundo ponto era a idade: os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João estavam entre os mais antigos, escritos entre 65 e 95 d.C. O terceiro argumento foi o número 4, considerado especial por Irineu – porque havia “4 ventos e 4 direções (norte, sul, leste e oeste)”, como escreveu o próprio bispo. E, por óbvia conclusão, 4 evangelhos. Deu para entender a lógica?”

“É claro, a história relatada no evangelho também foi levada em conta. Irineu representava o cristianismo ocidental, ligado aos legados do apóstolo Pedro, que pregou em Roma. Ele não aceitava – na verdade, rejeitava – os pensamentos gnósticos. “Os gnósticos diziam que a salvação vinha pelo autoconhecimento. Assim, acreditavam que não precisavam freqüentar cultos e igrejas ou ter um padre como intermediário. Também afirmavam que a morte de Cristo na cruz serviu para libertá-lo da prisão que era seu corpo, mas seu sofrimento não poderia salvar os homens que aderissem à Igreja Católica”, diz Jacir de Faria. Na prática, a pregação gnóstica não era nada interessante para um bispo que tinha como objetivo fortalecer a Igreja. Evangelhos como o de Judas, Tomé e até o de Pedro receberam o carimbo de heréticos.”

“Ao fazer suas escolhas, Irineu selou o destino de Judas. Um exemplo: por que Pedro, que negou Cristo 3 vezes, jamais teve sua virtude colocada em dúvida e não entrou para a história como traidor? “Pedro, chefe da Igreja em Roma, tinha de ser o herói. A Igreja elegeu Judas como vilão já que um dos 12 deveria trair”, diz o historiador Chevitarese. “Judas serve como exemplo para amedrontar os cristãos que não seguirem o Evangelho”, comenta Jacir. “O cristianismo precisa desses arquétipos. Destruí-los é mexer nas bases que o sustentam.” Foi mais seguro para Irineu, portanto, ficar com os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, que seguiam linhas parecidas e não feriam os princípios de que Pedro era o apóstolo mais próximo de Cristo e Judas, o traidor. (Para quem ficou curioso ao perceber que Marcos e Lucas não integravam a lista original de apóstolos, o esclarecimento: Marcos era sobrinho de Pedro. Lucas, amigo de Paulo, que se tornou apóstolo após a crucificação, segundo ele, “por vontade de Deus”.) ”

“A Igreja nunca vai aceitar a versão que absolve Judas da traição. Na visão dela, o pecado de Judas existiu e se deve ao mau uso de sua liberdade. Afinal, ele tinha livre-arbítrio para escolher não entregar Cristo. Não foi um ato inevitável, nem um fatalismo”, diz o historiador da religião João de Araújo. O frei Jair de Faria concorda. “Judas somos todos nós quando traímos o projeto do Evangelho. O recado é claro: na dúvida, melhor não trair.” Judas que o diga.”

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