mar
19
CULTURA ALEMA – Previsão do Tempo

Desde que cheguei na Alemanha, uma das coisas que mais me impressionam é a importância que a previsão do tempo tem para os branquelos daqui. Sério! É impressionante!

Eu cheguei e não entendia nada, mas às vezes ficava sentada na frente da TV brincando de adivinhar “worum es geht” (sobre qual tema) estavam falando e também tentando identificar palavras que eu já havia aprendido ali no meio daquela cebola sonora (sim, porque me fazia chorar). E lembro que fiquei embasbacada com a duracão da previsão do tempo. Não, vocês não tem idéia! Eles gastam, no mínimo, uns 5 minutos pra falar do tempo de amanha! Isso porque a Alemanha é menor do que Minas Gerais, ou seja, imagina se essa moda pega no Brasil. Vai ser pior do que ver horário político.(((-:

E, outra coisa, pelo menos nos jornais do nosso Estado (Baden-Wütemberg), a apresentacão não é feita por nenhuma modelo gostosa não. É feita por “modelos” que representam bem a realidade alemã, ou seja, por modelos idosos. Mas até que tem umas véinhas bem ajeitadas, viu!? (((-:

Quando comecei a entender o que diziam fiquei mais impressionada ainda, pois eles dão detalhes extremamente técnicos de como as zonas de convergência se formam, porque o deslocamento está nessa direcão, a velocidade com que a frente se move na direcão X e assim vai. Mas o mais engracado e diferente é o quanto esse blablabla meteorológico é sentimental. Pois é, aqui não é que nem no Brasil, onde as estacoes do ano não se diferem muito entre si.

Aqui, no período frio, qualquer solzinho que aparece pede uma festa e essa festa quem comeca é o cara que dá a previsão do tempo. Eles dizem mais ou menos assim: “e amanhã teremos mais um dia feliz de muito Sol” ou “infelizmente o Sol está nos deixando, mas ainda será possível um passeio no parque, pois não irá chover para nossa felicidade”. E quando o Natal se aproxima, então! Eles ficam doidinhos por neve na noite de Natal (e nós também) e ai narram mais ou menos assim: “O tempo está bem instável e há possibilidade de neve nesse Natal. Será que vamos ter neve? Que alegria seria, não é!? Vamos torcer para que essa previsão se concretize, assim teremos um Natal muito mais encantado.” 

Essas diferencas culturais me fascinam, pois algumas são passíveis de fácil entendimento, assim como esta. Não consegue entender nem essa? Então venha viver aqui e eu tenho certeza que não só vai entender, como também vai entrar na onda. Quer um exemplo? Eu não deixo de ver como estará o “Wetter” (Tempo) quase nem um dia sequer. O negócio vicia. Sério! Fico ali rezando pra ver um solzinho desenhado, não importando mais a que temperatura, acreditam?´

Pois é, vivendo, congelando e se adaptando. É isso ai!



mar
14
SENTIMENTOS – Fazendo amizades em outro país/lugar

Eu esperava escrever sobre isso só quando eu fosse embora da Alemanha para o Brasil, mas não aguentei depois que li um post da La falando sobre esse sentimento. Quando li o post dela chorei. E choro sempre que penso nas pessoas que um dia vou “deixar” pra trás aqui na Alemanha e na europa em geral.

E, além desse motivo, tem outro. Um dia fizemos um festao aqui em casa com quase toda brasileirada, um italiano e um alemao, e outro dia fizemos outra festa mas só com alemaes. Ver todo mundo junto já nos encheu de saudades de quando nao for mais assim. )))-:

É estranho, pois quando deixamos nossos amigos do Brasil dói muito. Dói demais. Mas não é só porque eles são brasileiros, mas sim porque são queridos. E então chegamos aqui e acontece o mesmo, tanto com brasileiros que conhecemos aqui, quanto com estrangeiros e alemães, pois eles também se tornam queridos e importantes nas nossas vidas. E, o mais importante, eles se tornam mais próximos do que aqueles que “deixamos” no Brasil. O que é normal geograficamente falando. (((-:

Quando cheguei fiz amizades com muitos estrangeiros, com os quais mantenho contato até hoje, nem que seja por email. Aprendi a admirar outras culturas e aprendi a descobrir o melhor das pessoas mais do que nunca, pois conseguir amigos estando fora do seu “mundo” é MUITO mais difícil. É difícil, pois as culturas são diferentes e você não sabe como “chegar”. Você fica com medo de ser mal compreendida, mal interpretada por causa da barreira da língua e com isso você, às vezes, fica cansada de tentar encontrar amigos. E muitos dos que você, num primeiro momento, julga potenciais amigos, se mostram com um pouco mais de tempo diferentes do que você gostaria e isso te deixa confusa e triste. Você percebe que não tem “tato” ainda e lidar com isso é difícil, pois no seu país você, normalmente e teoricamente, tem. Mas isso também acontece (pasmem) com brasileiros que conhecemos aqui, ou seja, somos frutos da mesma cultura, mas mesmo assim existem barreiras a serem ultrapassadas ou simplesmente aceitas.

No comeco eu era muito mais comedida, pois percebi que eu precisava dar espaco para as pessoas “se mostrarem” e ai sim eu poderia identificar potenciais amigos. Mas muitos dos que vieram, sumiram mais tarde. Cada um foi cuidar da sua própria vida e nunca mais nos falamos. Outros ficaram, mas nosso contato se tornou mais superficial. Não sei. É estranho explicar. Às vezes falta assunto, talvez por não termos uma história juntos, tanto na nossa vida pessoal aqui, quanto na nossa vida como um todo. É estranho, mas é também normal. Acho que quando somos mais novos, somos mais “flexíveis” e “abertos” para novas amizades e ai conforme vamos ficando mais velhos, vamos ficando mais criteriosos e exigentes (pra nao dizer chatos e enjoados pra caramba!). Me vejo pisando em ovos quando converso com pessoas assim e isso me dá um sentimento de “perda de identidade”. Não sou eu. Eu ODEIO ter que ficar pisando em ovos pra falar com pessoas próximas a mim. Odeio! Tá, sou meio alemã nisso mesmo. Admito 100%.

Gosto de olho no olho, gosto da verdade, gosto de discutir com gente que tem opinião própria e não opinioes que se ajustam, gosto de brigar com quem amo se for preciso, gosto de abracar quem amo a hora que dá vontade, gosto de pessoas que me digam a verdade mesmo sabendo que num primeiro momento eu vou fechar a cara, mas que depois eu vou amar essa pessoa mais ainda por ela ter sido verdadeira comigo. E esse tipo de pessoas são raras. As pessoas normalmente se escondem no comeco e isso me dá a sensacão de estar sendo enganada. As pessoas fazem de tudo pra agradar e não é só por educacão, mas por falsidade mesmo. Todo mundo que chega em outro país, chega e fica carente. Precisa de amigos, custe o que custar, inclusive sua própria identidade. Isso é triste e são dessas pessoas que quero distância sempre. Aqui ou lá.

Mas o mais engracado é que fiz pouquissímas amizades com brasileiros no comeco e não foi porque evitei. Simplesmente eles não apareceram ou não se fixaram na minha vida naquela época. Os primeiros que conheci foram a Letícia e o Rogério. Uns amores, mas a amizade demorou a crescer e a se concretizar. Tanto porque somos diferentes em muitos aspectos, quanto porque, acredito eu, cheguei aqui meio desconfiada de brasileiros (e motivos não nos faltam) e tomei uma postura de pisar com cuidado. Hoje tenho menos contato com o Rogério, que voltou para o Brasil e de vez em quando manda um email contando as novidades, mas a Lê está cada dia mais presente na minha vida. E ela foi a primeira “vítima” da minha postura de “abrir a guarda”, pois ela é muito diferente das amigas que eu tinha feito na minha vida toda até então. Temos muitas diferencas em nossas opinioes e modo de vida, mas descobri nela uma bondade tão intensa e uma vontade de querer nos ver bem tão sincera que não resisti, adotei ela como uma daquelas amigas que a gente não quer mais perder. E ai depois dela vieram outras pessoas maravilhosas que conheci justamente através dela: a Mi e a Paty.

Depois disso comecaram a surgir e estao surgindo novas amizades com mulheres brasileiras que conheci através desse blog. A Lá e a Lu (aliás, estou ficando louca com tanto “L”).  Pessoas MUITO especiais com as quais mantive contato por um bom tempo virtualmente e que hoje chegaram pra ficar na minha realidade. Nos ajudamos muito: eu ajudei elas antes de chegarem na Alemanha e agora e elas me ajudaram a ter mais um motivo pra ficar mais um bucadinho. Além delas, conheci também através da “Blogosfera” a Sandra (vive já há 15 anos na Alemanha), uma mineira que me ajudou muito nos meus passos iniciais para conseguir uma vaga no MBA e que sempre dá uma passadinha por aqui pra corrigir as coisas erradas que escrevo e também pra complementar de forma enriquecedora vários posts mais “profundos”. E como se nao bastasse ainda conheci mais uma brasuca de tabela: Monica. Essa está em fase de análise curricular, mas demonstra até agora um potencial incrível. (((-:

E, é lógico, que a empresa onde o Rô trabalha também fez a sua parte, trazendo o Silas, a Glau e a Débora pra ficar pertinho da gente nos fazendo rir muuuuuuuuuuuito! Tem também os cachos, mais conhecidos como maridos ou namoridos. Os que conheci até agora, nem preciso dizer o quanto sao importantes na nossa vida, né!? Sao eles: Augusto, Hugo, André, Marcos, Sudário, Fabrizio e Léo.

E o mais engracado é que só depois que eu terminei meu curso de alemao, é que comecaram a chover brasileiros maravilhosos na minha horta. Chega a ser assustador, no entanto que até  já conversei com o Rô que talvez vamos precisar alugar uma casa maior pra caber todo mundo. (((-:

Mas, como se nao bastasse, tem minhas amigas estrangeiras que AMO e que dói quando penso que um dia vamos estar loooooooooonge pra daná. Um dia eu e mais 3 desabamos na choradeira só de pensar nesse dia, pois chegamos nesse barco chamado “Alemanha” juntas e vivemos bons e maus bocados juntas também. Já sao 2 anos que vivemos (e sobrevivemos) a essa situacao e tenho certeza que sem elas tudo teria sido mais difícil.

Agora imagina a hora que chegar a hora de ir embora ou de ver indo embora. Nao gosto nem de pensar. Vivemos e estamos vivendo tantos momentos mágicos juntos. Estamos nos aquecendo literalmente nas épocas gélidas de outono e inverno. Estamos nos ajudando na adaptacao e aceitacao da cultura local. Estamos também xingando juntos tudo aquilo que agride a nossa cultura, nossos valores e nossa inteligência por aqui. Estamos dividindo gestacoes e nascimentos. Casamentos e crises amorosas. É tanta coisa e numa situacao tao ímpar. Nao há como esquecer essas pessoas. Mas vamos ter que aceitar novamente a distância. Nao tem jeito.

Por isso meu maior esforco tem sido aceitar as pessoas como elas sao e aproveitar o máximo tudo de bom que elas tem e aprender ao máximo sobre tudo que elas podem me ensinar. Em muitas identifico meu sonhos e em outras identifico meus defeitos que me incomodam. Entao pego esses dois lados e uso na minha vida, ou seja, realizo meus sonhos e corrijo os meus defeitos me baseando nos meus sentimentos em relacao às características dessas pessoas. Nada e nem ninguém “acontece” por um acaso na nossa vida. Disso eu sempre tive e tenho certeza.

Entao aproveitem sempre cada minuto próximos às pessoas com quem vocês se identificam, seja pelas qualidades, seja pelos defeitos. Viva. Discuta. Brigue. Abrace. Beije. Mas nao desista das pessoas, principalmente quando elas forem difíceis, pois sao essas as mais preciosas na sua vida. (sim! eu sou uma jóia vendo por esse ângulo! hahaha)

Seja sincero e tolerante, pois assim nunca lhe faltará amigos de verdade seja onde for.



mar
13
ANÁLISE – Violência e suas faces

Eu nao vou aqui descrever o que aconteceu nas proximidades de Stuttgart durante essa semana (estudante que matou várias pessoas e depois se matou), mas sim registrar aqui uma análise do “problema”  que eu e meu marido fizemos hoje quando falamos sobre esse ocorrido.

Estou estudando em Reutlingen, uma cidade que está próxima do ocorrido. No dia eu estava indo para a estacao de trem, quando meu telefone tocou. Era meu marido que me ligou pra me perguntar se eu estava bem. Achei estranho e disse que sim e perguntei o por quê da pergunta. Foi entao que ele me explicou o que aconteceu e me disse que o cara fugiu em direcao à Reutlingen e por isso ele ficou preocupado. Naquele momento o rapaz já tinha sido morto, mas o Rô esqueceu de me contar isso e ele precisava desligar, pois tinha recebido uma outra ligacao que precisava atender. Desligamos e eu fiquei branca e estática onde estava por alguns segundos. De repente comecei a andar rápido até a estacao, olhando para todos os lados e morrendo de medo do cara estar mesmo por lá. Chegou o trem e eu entrei. Observei as pessoas dentro do vagao e vi um cara “meio” suspeito, foi entao que decidi descer e ir para o outro vagao. Fiquei neurótica. Todo mundo virou suspeito. Mas gracas a Deus eu nao corria mais risco, mas o trauma ficou.

Ontem fui pra Uni e fiquei pensando como estamos desprotegidos em qualquer lugar para onde vamos. Nao há mais “o lugar seguro” ou “o país seguro”.

No Brasil tivemos esse tipo de problema somente uma vez em um cinema no Morumbi, onde um estudante de medicina saiu atirando em todo mundo que estava dentro do cinema. No Brasil nós temos a marginalidade atrelada (quase sempre) à criminalidade, mas isso pelo menos dá ferramentas para que a polícia evite que algo aconteca, pois o criminoso sempre tem um histórico que deixa rastros sobre seus possíveis próximos passos e às vezes a polícia consegue evitar seus próximos crimes (ou ajudá-lo, enfim).

Nos países desenvolvidos esse problema é muito mais comum, menos nos países asiáticos (até onde eu saiba). Os crimes ocorrem por pessoas com distúrbios psicológicos e, geralmente, sao pessoas “normais” e “indefesas”. É o tipo de crime que nao dá pra prever, pois um aluno com distúrbios pode estar sentado atrás de você numa sala de aula e um belo dia ele resolve que o mundo é cruel e que você tem culpa por isso e “simplesmente” saca uma arma e atira em você. Nao há como se proteger, pois o perigo mora onde você menos espera. E qual é a causa? Acho que é isso que todo mundo se pergunta numa situacao dessas, né!? Eu, pelo menos, me pergunto isso sem cansar. Acho que nesses casos o problema é TAMBÉM (como no Brasil) um problema de cunho social. Geralmente sao pessoas que também se sentem “marginalizadas”, ou seja, à margem da sociedade onde convivem. Esse alemao, por exemplo, estudava em um tipo de escola que é marginalizada aqui na Alemanha, a “Realschule”. Eu já ouvi e li várias vezes que muitas criancas que sao privadas do direito de poder estudar em uma escola melhor (o aqui chamado “Gymnasium”) apresentam distúrbios e uma forte revolta contra o sistema e a grande maioria dos estudantes sao estrangeiros ou filhos de estrangeiros, pois para ter uma vaga no “Gymnasium” é preciso ter super notas em Alemao e Matemática. Mas, por outro lado, também tem muito aluno desse “Gymnasium” que sofre distúrbios talvez devido à forte pressao sobre todos eles para que tenham sempre as melhores notas. Eu já li numa revista alema que uma grande porcentagem dos alunos na Alemanha tem que ser acompanhados por psicólogos, pois a pressao para que tenham as melhores notas é muito grande e o tempo que eles tem livre para se divertir é cada vez menor. A maioria dos pais paga nao só psicólogos, mas também professores particulares para ajudarem seus filhos a estudarem fora da aula.

Resumindo: marginalidade no Brasil e em países fora do chamado “primeiro mundo” leva à criminalidade (acoes de selvageria), já a marginalidade em países mais desenvolvidos leva à acoes irracionais sem cunho criminal (acoes relacionadas à distúrbios psicológicos). As acoes criminais podem ser prevenidas, já as acoes psicopatas só podem ser (no momento que ocorrem) minimizadas (como foi feito pelos professores da escola na Alemanha através de códigos).

No Brasil eu tinha medo de assaltos (os quais posso evitar até um certo ponto tomando certos cuidados), aqui agora tenho medo do inesperado e invisível. O que é pior? Nao sei. Sinceramente. Só lamento pelo rumo que o mundo está tomando. Solucao? Reduzir ou eliminar a marginalizacao de grupos específicos na sociedade e dosar a pressao sobre criancas e adolescentes para que atinjam às expectativas de pais e sociedade, quando eles deveriam estar focados em se desenvolver como seres humanos acima de tudo. Utopia? Eu, sinceramente, acho que sim.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...





Categorias