fev
12
DIARIAMENTE – 12.02.2009

Eu nunca fui e nem vou conseguir ser uma daquelas mulheres que escrevem em seus diários. Morro de inveja de quem é assim! Juro! Acho que deve ser delicioso ler diários do nosso passado pra ver nossa evolucao ou para rir da nossa nao-evolucao. (((-:

Mas, de vez em quando, ou seja, nos dias que forem bem agitados e interessantes, vou tentar resumir a missa por aqui nessa ”novela da vida real” chamada “DIARIAMENTE”. Mas juro que vou ser beeeem mais objetiva do que as novelas que existem por ai.  (((- :

E me desculpem, mas nada de cedilha, nem tio nem tia. Mó trampo! (((-:

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Bom, hoje acordei bem cedinho, pois precisava levar um monte documentos na prefeitura para autenticar , pois a Uni solicitou essas bagacinhas para eu finalizar minha matrícula. Mas quando acordei nao acreditei no que vi: MUUUUUUITAAAA NEVE lá fora!!!!

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Eu fui dormir já era quase 1 da matina e nem parecia que ia nevar, ou seja, nevou horroros enquanto nós sonhávamos. Fiquei eufórica, pois neve é uma das coisas mais lindas e fofas que existe! FOFAAAAA!!!

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Eu e o Rô saímos juntos e comecamos a tirar foto de tudo. Típicos japoneses. Afff… Eu, é lógico, vesti minha blusa vermelha e levei meu guarda-chuva também vermelho pra fazer bonito nas fotos. A verdadeira lady nao-européia, afinal quase NINGUEM aqui usa guarda-chuva quando está nevando. Uma marmota, podemos assim dizer. Mas um luxo!!! (((-:

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Fui até a prefeitura e nao tinha nem fila. Pedi para a mocinha autenticar minhas cópias. Eu é que nao ia deixar eles fazerem as cópias lá, pois eles cobravam € 0,50 por página!  E ainda fiquei com receio de nao aceitarem as cópias que eu fiz em casa, alegando que eu poderia ter modificado algo. Mas no fim deu certo e só paguei a autenticacao no valor de € 2,00. Uma beleza, né!? Pois é, mas a cabecuda aqui esqueceu de autenticar o visto de permanência e só descobri que eles pediam isso quando cheguei em casa. A sorte é que vou andando até a prefeitura, o que dá aprox. 1 km e, dessa vez, deu também fotos lindissímas, pois o céu, pasmem, abriu!!!! ((((((((((((((((((((((((-:

Essa foto abaixo representa o que aqui chamamos “die Lawinengefahr”, ou seja, perigo de avalanche. Sério! O tempo comecou a esquentar e todo gelo depositado em galhos e telhados comeca a despencar na cabeca do povo. E esse galho está com uma concentracao significativa de gelo, o que possibilita uma avalanche sobre a cabeca de uma crianca ou de uma anao, concordam??? (((-: Mais fotos de neve aqui!

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Mas voltando aos acontecimentos do dia. Estava eu feliz e saltitante indo para a prefeitura, quando me deparei com um farol vermelho. No comeco isso era um problema, pois eu tinha lido que aqui na Alemanha NINGUÉM atravessa, mesmo que nao tenha nenhum carro vindo, no farol vermelho. MENTIRA! As pessoas só nao atravessam, quando tem alguma crianca esperando para atravessar e eu concordo. Só pra dar exemplo mesmo. Mas, enfim. Nao vinha nenhum carro e eu, claro, FUI. Pois nao é que um véio que estava plantado esperando o farol abrir comecou a me xingar! ((((-: Se fosse quando cheguei eu ia ficar super encanada e talvez nem dormisse à noite, mas hoje em dia eu saio rindo e cantando: “Tô nem ai, tô nem ai…”. Eu só ouvi ele dizendo: “…schschschschsch Scheiße… die rote Ampel… schschschschsch…” (algo do tipo merda… farol vermelho… e um monte de chiados…hahaha). Tadinho, gritou tanto e meu dia continuou lindo. O povo daqui deve sofrer muito com gastrite e úlcera. Afff… (((-:

Depois de rir muito do véio rabugento, cheguei na prefeitura. Só que dessa vez o povo queria dificultar minha vida. Será que eram amigos do velho? (((-: Na verdade, acho que é porque já estava quase na hora do almoco deles e ai já comecam a ficar de mau humor. Enfim. Como da outra vez, já fui entrando e esperando alguém me atender. Foi quando uma mulher me perguntou se eu tinha pego a senha. E eu lá sabia que tinha que pegar senha para ser atendida num lugar que nao tinha nenhum cliente? Pois é. Ela pediu para eu pegar a senha do lado de fora e esperar sentadinha lá do lado de fora. Nao tinha ninguém na fila! Mas a louraca belzebu me fez esperar 1 minuto. Comedora de chucrutes, viu! Ai veio me atender com aqueeeeeeeeeeele desprezo. Pedi a autenticacao e ela me disse que talvez nao ia dar, pois eu DEVERIA ter levado já uma cópia do visto que está no passaporte e blablabla. Foi quando eu, bem esperta, saquei da minha super pastinha a cópia que eu já tinha feito em casa, por via das dúvidas. Ela me olhou muito puta. Hahahahaha. Ficou analisando, tentando achar barreiras e eu lá com aquela cara de “tô nem ai, se vira branquela”. Até que após quase um minuto de prece (parecia que ela estava rezando), ela pegou o papel e já foi me falando o preco. Ufa! Por isso eu digo: se prepare sempre para o pior quando vai precisar da área de servicos públicos, tanto aqui, quanto no Brasil. Ô povo difícil.

Saindo da prefeitura lembrei de algo muito importante: o saco amarelo (Gelbe Sack). Esse é o saco para colocar o lixo reciclável, que é coletado a cada 15 dias mais ou menos na porta da nossa casa. Desde que o Rô chegou aqui, a gente sempre compra o maledeto, mas um dia minha amiga iraquiana me disse que ela e o namorado NUNCA tinham comprado, pois na prefeitura você pega de graca. Que ódio! Mas agora tuuuuudo resolvido. Cheguei no guichê onde tinha uma véia emburrada e li um aviso, onde dizia que era um saco por cada residência. Já subentendi que eu deveria apresentar algum documento para que eles possam controlar isso, certo!? Nada. Mal terminei de perguntar pra mulher, o que eu deveria apresentar para pegar o saco e ela já foi enfiando o rolo na minha fuça. Afff… Uma delicadeza! Só perdoo a múmia por que, apesar de tudo, ainda sai no lucro. (((-:

Saí de lá e vi que já estava na hora do almoco e ai decidi convidar o Rô pra almocar comigo em um restaurante chinês maravilhoso que tem no nosso bairro. Delicioso e baratinho! O Rô trabalha pertinho e veio a pé. Nos encontramos e almocamos juntos. Que romântico! (((-: Eu comi até! Esse é o único problema desse restaurante, vem muita comida e como é muito boa eu como tuuuuuudo até explodir. Ai…ai…

Antes de voltarmos o Rô falou que na feirinha que era ali do lado, os caras vendiam limao muito mais barato do que no mercado e decidimos ir lá comprar. Meu Deus é MUITO mais barato, é do Brasil e é muito maior! Compramos 20 limoes por apenas € 3,00! E ainda nos divertimos com a chinesa que nos atendeu. Mal chegamos perto do limao e ela já comecou a rir dizendo: “Caipirinha, né!? Caipirinha”. (((-: Doidinha! Mas acertou em cheio! Sábadao tem festa só pra brasileiros aqui em casa e é lógico que vai ter caipirinha com o legítimo e importado limao brasileiro. Uhú!

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Bom, depois disso voltei pra casa e o Rô voltou pro trabalho e todos viveram satisfeitos para sempre! (((-:

É isso ai. Agora que cheguei em casa e que estou cansada de tanto ir pra lá e pra cá só me resta fechar o diário e terminar de preparar a papelada para levar amanha na Uni. Seja o que Deus quiser! (((-:



fev
9
EXPATRIADOS – O que fazer quando dá saudades?

Saudades. Considerada por especialistas a 7a palavra mais difícil de se traduzir para outras línguas, mas que para nós não se traduz, se sente. E como se sente.

É um sentimento que atinge à todos nós, mas que aqui eu gostaria de falar sobre este sentimento na vida de pessoas que “deixaram” seu país, que seja por um mês ou por alguns anos ou, até mesmo, por uma vida toda.

Pra quem lê meu blog, pode parecer que me tornei com o tempo uma rocha. Pode parecer que sou a mulher “mairavilha”, mas infelizmente não sou não. Também tenho meus dias saudosistas e melancólicos. Também tenho por vezes vontade de voltar, nem que seja por 10 minutinhos, tempo suficiente para abraçar as 10 pessoas mais queridas (escolha difícil, viu!). É, acho que um minuto por abraço já me recarregaria, pelo menos por mais alguns meses longe dos “meus”.

Mas, na verdade, não posso reclamar. Nós, expatriados dos tempos modernos, temos a internet à nosso favor. Graças à essa rede interligada e quase sem limites, podemos hoje nos sentir perto, por mais longe que estejamos. Fico por vezes pensando como seria sem a internet e chego à conclusão de que talvez eu não conseguisse aguentar por muito tempo tanta saudade e, às vezes, tanta solidão.

Quando cheguei, não existia alegria maior do que receber um email pessoal de alguém querido. Sério! E quando não chegava nenhum eu ficava muito triste e já começava a pensar que todos já tinham me esquecido ou que estavam prestes a isso. Eu clicava no “enviar/receber” compulsivamente a cada 5 minutos. Era doentio. Hoje estou melhor, ou seja, só clico a cada 15 minutos. (((-:

O melhor que fiz foi decidir fazer um curso de alemão intensivo e, posso dizer, até mesmo desumano. Foi ótimo, pois lá conheci pessoas na mesma situação que eu e também porque era tanta informação que eu mal tinha tempo de sofrer por causa da saudade, ou seja, eu sofria mesmo era por causa da “bendita” língua alemã. Mas é como dizem: há males que vem pra bem. (((-: Sofri muito para aprender o alemão (ainda sofro), chorei muito em casa fazendo os exercícios, mas foi graças à essa decisão que consegui me comunicar mais rápido, principalmente com meus novos colegas de sala. Na metade do segundo nível já conseguíamos até desabafar em “aletudo” (tradução: língua alemã desenvolvida por estrangeiros onde vale tudo). É verdade! Eu e minhas colegas até chorávamos em alemão! Uma experiência única. (((-: 

Mas o curso após um ano maravilhoso (e muito cansativo, tenho que admitir) acabou e muitos dos meus colegas tomaram seus rumos. Alguns continuam em contato, mas outros simplesmente sumiram do mapa. Ficou um vazio. Voltou a saudade do Brasil.

Hoje passo boa parte do dia sozinha, pois estou esperando algumas respostas para poder planejar meu ano, e com isso é difícil não sentir saudades dos tempos onde eu mal tinha tempo para pensar. Agora tenho de sobra, mas dispenso. Pensar cansa, viver nos alimenta. Por isso desenvolvi várias técnicas para driblar a saudade, ou melhor, para dar menos espaço para que ela se pronuncie ou para “modificar” um pouquinho sua essência. Hoje ela não dói tanto, ela me alimenta e me dá forças pra seguir adiante. As técnicas “mairanas” são as seguintes:

- misturei fotos dos meus velhos amigos e familiares e dos meus novos amigos, assim dá a impressão de que tudo aquilo é uma coisa só. Na verdade é, ou seja, são pessoas que fazem parte da minha vida;

- ouço as rádios do Brasil quando sinto saudades, pois assim parece que nada mudou;

- penso no último reencontro e trago aqueles sentimentos pra perto de mim, ou seja, me engano dizendo pra mim mesma que é possível sim trazer carinho numa caixa bem fechada, mas é preciso consumir com moderação, pois é um estoque muito limitado;

- penso (e muito) no futuro. Penso que estou aqui vivendo momentos bons e outros difíceis, mas que no final sairei lucrando. Todo dia crio/invento uma META que esteja alinhada com tudo que eu amo e com tudo que desejo. Eu VIVO e SOBREVIVO com essa certeza: dias melhores virão! E quem sabe não é hoje? (((-:

- vou para a rua com o coração cheio de esperança, amor e alegria, pois sei que assim vou encontrar pessoas boas em qualquer lugar que eu for. E não é que funciona! Sério! É impressionante como sua energia pode transformar ABSOLUTAMENTE tudo à sua volta, inclusive o mau humor típico de alguns alemães. (((-:

- ouço MUITA música brasileira, canto as que sei (e até as que eu não sei) e danço samba e forró sozinha, sem medo e, às vezes, sem ritmo. (((-:

- e, quando o bicho tá pegando, entro no Orkut/Facebook de todo mundo pra fuçar na vida alheia. Pois é, posso não estar por perto, mas tô sempre atualizada. (((-:

- outra alternativa tem tudo a ver com a afirmativa: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”, ou seja, reúno um monte de brasileiros em casa pra comer e beber coisas típicas do Brasil e, o melhor, pra falar português desenfreadamente. Tenho que admitir que essa é uma das melhores estratégias “anti-banzo”! (((-:

- mas a melhor válvula de escape pra mim é, sem dúvida, fazer o que estou fazendo agora: escrever e dividir. Sempre que escrevo, no final parece que perdi 5kg de tão leve que me sinto (quem dera a balança reconhecesse isso). Sei lá, sinto que não estou só, pois sei que outras pessoas vão ler o que escrevi e que, no mínimo, vou arrancar um sorriso de cada uma destas pessoas. Quando penso nesse “retorno invisível”, minha alma se preenche e a saudade perde a sua magnitude inicial. Ela se transforma em cumplicidade. Ela se transforma em amor e amor de verdade liberta, alivia, revitaliza.

- e, por último, ouço a música e vejo o clip que eu mais AMO sobre esse tema: A Sua (Marisa Monte). A letra é maravilhosa, mas existe uma frase que resume tudo: “(…)Aonde for não quero dor eu tomo conta de você / Mas te quero livre também / Como o tempo vai e o vento vem(…)”

“…Saudade é amar um passado que ainda não passou,
É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida…”
(Pablo Neruda)

E você? Quando dá aquele aperto e aquela vontade de pegar o primeiro voo, o que você faz pra despistar a danada da saudade? Suspire, se inspire e relate pra gente.

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