Reflexões

EXPATRIADOS – O que fazer quando dá saudades?

Saudades. Considerada por especialistas a 7a palavra mais difícil de se traduzir para outras línguas, mas que para nós não se traduz, se sente. E como se sente.

É um sentimento que atinge à todos nós, mas que aqui eu gostaria de falar sobre este sentimento na vida de pessoas que “deixaram” seu país, que seja por um mês ou por alguns anos ou, até mesmo, por uma vida toda.

Pra quem lê meu blog, pode parecer que me tornei com o tempo uma rocha. Pode parecer que sou a mulher “mairavilha”, mas infelizmente não sou não. Também tenho meus dias saudosistas e melancólicos. Também tenho por vezes vontade de voltar, nem que seja por 10 minutinhos, tempo suficiente para abraçar as 10 pessoas mais queridas (escolha difícil, viu!). É, acho que um minuto por abraço já me recarregaria, pelo menos por mais alguns meses longe dos “meus”.

Mas, na verdade, não posso reclamar. Nós, expatriados dos tempos modernos, temos a internet à nosso favor. Graças à essa rede interligada e quase sem limites, podemos hoje nos sentir perto, por mais longe que estejamos. Fico por vezes pensando como seria sem a internet e chego à conclusão de que talvez eu não conseguisse aguentar por muito tempo tanta saudade e, às vezes, tanta solidão.

Quando cheguei, não existia alegria maior do que receber um email pessoal de alguém querido. Sério! E quando não chegava nenhum eu ficava muito triste e já começava a pensar que todos já tinham me esquecido ou que estavam prestes a isso. Eu clicava no “enviar/receber” compulsivamente a cada 5 minutos. Era doentio. Hoje estou melhor, ou seja, só clico a cada 15 minutos. (((-:

O melhor que fiz foi decidir fazer um curso de alemão intensivo e, posso dizer, até mesmo desumano. Foi ótimo, pois lá conheci pessoas na mesma situação que eu e também porque era tanta informação que eu mal tinha tempo de sofrer por causa da saudade, ou seja, eu sofria mesmo era por causa da “bendita” língua alemã. Mas é como dizem: há males que vem pra bem. (((-: Sofri muito para aprender o alemão (ainda sofro), chorei muito em casa fazendo os exercícios, mas foi graças à essa decisão que consegui me comunicar mais rápido, principalmente com meus novos colegas de sala. Na metade do segundo nível já conseguíamos até desabafar em “aletudo” (tradução: língua alemã desenvolvida por estrangeiros onde vale tudo). É verdade! Eu e minhas colegas até chorávamos em alemão! Uma experiência única. (((-: 

Mas o curso após um ano maravilhoso (e muito cansativo, tenho que admitir) acabou e muitos dos meus colegas tomaram seus rumos. Alguns continuam em contato, mas outros simplesmente sumiram do mapa. Ficou um vazio. Voltou a saudade do Brasil.

Hoje passo boa parte do dia sozinha, pois estou esperando algumas respostas para poder planejar meu ano, e com isso é difícil não sentir saudades dos tempos onde eu mal tinha tempo para pensar. Agora tenho de sobra, mas dispenso. Pensar cansa, viver nos alimenta. Por isso desenvolvi várias técnicas para driblar a saudade, ou melhor, para dar menos espaço para que ela se pronuncie ou para “modificar” um pouquinho sua essência. Hoje ela não dói tanto, ela me alimenta e me dá forças pra seguir adiante. As técnicas “mairanas” são as seguintes:

- misturei fotos dos meus velhos amigos e familiares e dos meus novos amigos, assim dá a impressão de que tudo aquilo é uma coisa só. Na verdade é, ou seja, são pessoas que fazem parte da minha vida;

- ouço as rádios do Brasil quando sinto saudades, pois assim parece que nada mudou;

- penso no último reencontro e trago aqueles sentimentos pra perto de mim, ou seja, me engano dizendo pra mim mesma que é possível sim trazer carinho numa caixa bem fechada, mas é preciso consumir com moderação, pois é um estoque muito limitado;

- penso (e muito) no futuro. Penso que estou aqui vivendo momentos bons e outros difíceis, mas que no final sairei lucrando. Todo dia crio/invento uma META que esteja alinhada com tudo que eu amo e com tudo que desejo. Eu VIVO e SOBREVIVO com essa certeza: dias melhores virão! E quem sabe não é hoje? (((-:

- vou para a rua com o coração cheio de esperança, amor e alegria, pois sei que assim vou encontrar pessoas boas em qualquer lugar que eu for. E não é que funciona! Sério! É impressionante como sua energia pode transformar ABSOLUTAMENTE tudo à sua volta, inclusive o mau humor típico de alguns alemães. (((-:

- ouço MUITA música brasileira, canto as que sei (e até as que eu não sei) e danço samba e forró sozinha, sem medo e, às vezes, sem ritmo. (((-:

- e, quando o bicho tá pegando, entro no Orkut/Facebook de todo mundo pra fuçar na vida alheia. Pois é, posso não estar por perto, mas tô sempre atualizada. (((-:

- outra alternativa tem tudo a ver com a afirmativa: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”, ou seja, reúno um monte de brasileiros em casa pra comer e beber coisas típicas do Brasil e, o melhor, pra falar português desenfreadamente. Tenho que admitir que essa é uma das melhores estratégias “anti-banzo”! (((-:

- mas a melhor válvula de escape pra mim é, sem dúvida, fazer o que estou fazendo agora: escrever e dividir. Sempre que escrevo, no final parece que perdi 5kg de tão leve que me sinto (quem dera a balança reconhecesse isso). Sei lá, sinto que não estou só, pois sei que outras pessoas vão ler o que escrevi e que, no mínimo, vou arrancar um sorriso de cada uma destas pessoas. Quando penso nesse “retorno invisível”, minha alma se preenche e a saudade perde a sua magnitude inicial. Ela se transforma em cumplicidade. Ela se transforma em amor e amor de verdade liberta, alivia, revitaliza.

- e, por último, ouço a música e vejo o clip que eu mais AMO sobre esse tema: A Sua (Marisa Monte). A letra é maravilhosa, mas existe uma frase que resume tudo: “(…)Aonde for não quero dor eu tomo conta de você / Mas te quero livre também / Como o tempo vai e o vento vem(…)”

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=z3j3ChKCJRc]

“…Saudade é amar um passado que ainda não passou,
É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida…”
(Pablo Neruda)

E você? Quando dá aquele aperto e aquela vontade de pegar o primeiro voo, o que você faz pra despistar a danada da saudade? Suspire, se inspire e relate pra gente.

[pinit count="vertical"]

13 Comentários para "EXPATRIADOS – O que fazer quando dá saudades?"

  1. LA disse:

    ahhhhhhhhhhhhhhh eu entro no seu blog! AHHAHAHAH
    pois eh, sei mto bem o que eh ficar apertando o ” receber” a cada 15 segundos, tem dia que ainda estou assim!
    Mas conhecer pessoas maravilhosas como voces foi uma das melhores coisas pois quando estamos todos juntos parece que estou em casa!
    Mtoooo bom ter internet ne?
    So estou espernado uma impressora pra perder meu tempo imprimindo mil fotos dos velhos e novos amigos! HEHEHEHEHE
    bjaoo

    • Maira disse:

      Lá, conhecer vcs também nos trouxe muita alegria e muitos menos dias de sobriedade…hahaha… Vcs sao otimos e ouvir q estamos fazendo a vida de vcs “mais leve” nesse comeco é a segunda melhor coisa q ouvi hoje (a 1a veio do Rô…hahaha)! De verdade! É gratificante e delicioso saber que estamos ajudando quem está chegando por aqui! É isso ai: brasileiros unidos, jamais serao congelados! ((((-: E nada de imprimir fotos em casa, tem um servico online ÓTIMO do Lidl… Depois te passo “o canal”!!! Bjssss e obrigada pelo carinho!!!!

  2. Rodrigo Gouvea disse:

    pois é, tem hora que a saudade aperta e dá uma tristezinha né? Entretanto, além das coisas boas que você mencionou, e de todas as pessoas legais que conhecemos aqui, a gente ainda tem um ao outro. É isso aê! Te amo, Rodrigo.

    • Maira disse:

      Lindoooooooooooo! Pois é meu “Schatz”, nem preciso dizer que sem você eu nao conseguiria, né!? Foi, em parte, por você que cheguei aqui e agora é por nós que vou até o fim! (((-: Mas dizer q vc é o fator decisivo é “selbstverständlich”, né!? (((-: E se eu ficar fazendo propaganda, daqui a pouco vai ter fa clube seu aqui na Alemanha. (((-: “Ich liebe dich morgen, heute und immer mehr!” Bjim, SUA Má.

  3. Sandra Santos disse:

    A dica da qual mais gostei, e que com certeza é a que mais funciona, é “todo dia crio/invento uma META que esteja alinhada com tudo que eu amo e com tudo que desejo”. Eu faco tudo isso que vc descreveu, mais ainda tento me concentrar no “agora” e nao pensar no montao de coisas boas da nossa Terrinha, pra nao sofrer por nao poder ir lá tantas vezes quanto eu gostaria de ir… E aproveitar tudo o que há de bom do lado de cá. Continuo com meu pensamento fixo: o “Brasilandia” ou o “Deutschlien”, ou como quiser combinar os dois países, é que seria um excelente lugar pra se viver!… :-) Beijos, Sandra

    • Maira disse:

      Pois é Sandra, concordo com vc! Tem muita coisa boa aqui, coisas que talvez eu sinta falta quando eu estiver lá, assim como sinto do falta do que está lá hoje estando aqui. Doido, né!? É a eterna insatisfacao do ser humano. Enfim. Mas já que o país dos nossos sonhos nao existe, eu e o Rô fazemos da nossa casa um “Brasil” dentro da Alemanha. (((-: Cheio de alegria, festa, caipirinha, pao-de-queijo, caldo de feijao, bolo de fubá, amigos (de todas as nacionalidades, inclusive alema), músicas desde Bossa Nova até Rock e muito muito barulho! (((-: Gracas à Deus nossos vizinhos sao todos italianos e quando fazemos festa eles até emprestam mais cadeiras! hahahaha…. Bjs!!!!

  4. Samantha disse:

    Oi Má… eu tb me sinto meio down de vez em quando, mas isto acontece mais nos finais de semana… Acho que e pq sei que a maioria do pessoal do Brasil vai estar “desconectada” e que tenho que passar mais tempo sozinha.
    As vezes choro por ouvir alguem falando “espanhol” na rua… so pq me faz lembrar de casa ;-) …. e agora me peguei falando sozinha em ingles… pode? Acho que é pq nao falo muito portugues agora. Só falo com a Chris e quando estou no Skype com o pessoal de casa.
    Mas e muito bom saber que posso dividir minhas experiencias com vc!!!
    Hj voltei do trabalho escutando um CD de musicas brasileiras… parece que um pouco do baixo astral vai embora… “moro… num pais tropical, abencoado por Deus… e bonito por natureza”…
    Bjs

  5. Juana disse:

    Eis minha querida sempre bate aquela saudade! Assim esteja tudo bem, rodeada de pessoas queridas, de alguém como o teu Rodrigo…Experiencia própria, pois de vez enquando aparece essa vontade de estar uns minutinhos en Sullana-Perú, abraçar, beijar o povo, minha família, comer alguns pratos como o ceviche (aquele peixe crú apimentado), e olha estou aqui ao lado, só que há tantas responsabilidades e a vontade se esvaneia, porém sinto que não estou tão longe como quando estava na Russia e isso alivia a minha alma…Por isso todo fim de semana ligo para Jader na França e escrevo todos os dias, todas as noites ligo para Jamila na Argentina, assim talvez não sintam essa saudade, e só realizem os sonhos de crescer e voltar logo ao Brasil…
    Desculpe que não te escreva tão seguido, meu Deus como posso deixar esta filhota tão sozinha, prometo que de hoje em diante vou te escrever todos os dias,estou com o coração apertado porque no fundo estou só por aqui, e na luta minha querida…beijos, beijos

  6. Tati disse:

    Oi, guria!
    Eu tb escrevo pra me aliviar, e quando leio teu blog tu tens mais um sorriso, o meu.
    Eu respondi o post q tu escrevestes no meu blog, dà uma olhadinha là. Infelizmente eu nao acredito mais no Brasil. Nao nele em si, mas eu dentro dele. Eu acho q ele nao pode me dar o que eu quero. Aliàs, eu acho q eu nao sei quem ou o q pode me dar o q eu quero, pq eu acho q nem eu mesma sei o q eu quero… eu vim pra Europa tao feliz, vivia me lascando mas vivia sorrindo, eu ando tao amarga ultimamente… Nao repara… Prometo melhorar.
    Eu pensava q eu era a ùnica que atualizava a pàgina de 15 em 15 segundos, hahahahaha!
    A internet è uma maravilha, eu falo com a minha melhor amiga no Brasil quase todos os dias pelo Skype, mas o grande problema è q isso gera menos contato com o ambiente onde tu estàs. As gurias da minha casa vivem me chamando de antisocial pq eu vivo sentada no sofà com a cara no computador. Eu nao tenho grandes laços aqui como eu tinha na Italia, e eu sei q um dos fatores è a internet. mas eu sou viciada, o q eu vou fazer?
    Eu tenho è q direcionar meu vicio pra coisas produtivas tb (nao sò ficar apertando atualizar, o q eu faço ainda hoje), como estudar, ou procurar um novo namorado tb, pq nao? Hehehehe!
    Ainda bem q a internet me faz encontrar pessoas legais como tu!
    me adiciona no Orkut/Facebook se tu quiseres! Meu nome è Tatiana Pianta Moog, meu e-mail piantamoog@gmail.com
    Bjks!

  7. Raquel Kuhn disse:

    Passei seis meses longe do Brasil e do meu filho, de 4 anos. Entrei aqui, pois estou escrevendo uma matéria sobre expatriados e simplesmente fiquei arrepiada com o seu texto.

    Me emocionei e relembrei o tempo que estudei em Vancouver.
    Saudades de lá, saudades de cá quando morava lá.
    Complicado isso, né!?

  8. Vanessa Pena disse:

    Parabéns pelo relato. Bem, sou brasileira e faltam apenas oito dias para minha viajem. Estou de partida para Portugal, eu e meu filho, mas, nunca achei que fosse tão difícil deixar a familia, mas enfim, já estou me preparando psicologicamente para aprender a fazer da saudade minha aliada, pois, é com ela que vou ter que aprender a conviver.
    Um grande abraço.

  9. Guilherme disse:

    Gostei muito do seu blog, estou acompanhando suas historias….

    Estou indo pra Alemanha em Julho!

Deixe seu Comentário





* Campos de preenchimento obrigatório