Reflexões

Meu último dia de turista na terra de Bach…

 

 ”Só me interessam os passos que tive de dar na vida para chegar a mim mesmo.” (Herman Hesse)

Hoje é meu último dia “na boa” aqui na Alemanha, afinal quando voltar para cá não serei mais uma turista, mas sim uma expatriada em busca do crescimento e superação em todos sentidos… Escolhas que fiz consciente, pois tenho certeza de que vale a pena, pois sempre valerá a pena estar com quem se ama e ampliar horizontes através de experiências interculturais.

Neste mês que fiquei por aqui tive as primeiras impressões e certezas do que está por vir e do que esta experiência vai exigir de mim. Sinto que a grande barreira, sem surpresas, é a língua germânica e seus inúmeros dialetos. As demais peculiaridades são culturais e a adaptação em qualquer país implica em aceitá-las e tentar compreende-las, estando sempre aberto à possibilidade de adotar algumas e ignorar outras, afinal aqui você é o “intruso” e não quem dita as regras.

Percebi que para muitos alemães somos estrangeiros intrusos querendo ocupar o espaço e a história deles, por isso é comum que te tratem com desprezo e arrogância. Mas quer um conselho? Sorria sempre que for mal-tratado e agradeça, afinal somos “intrusos” bem educados e gentis, certo!? Eles são, no geral, intolerantes e reservados. Não tem paciência pra explicar o que pra eles é “óbvio” e através de sua gramática já te dizem se ele quer ser seu amigou (usam o “Du” como sujeito que significa você) ou prefere que você respeite a intimidade dele (usam o “Sie” que significa Sr.) e com isso os verbos que acompanham estas formas também mudam. Eles não são fofos!? Afff…

Desculpe e obrigada são artigo de luxo por aqui… por isso uso sempre! Afinal sou um luxo! O único problema é que sou quase sempre ignorada quando pronuncio estas palavras em extinção por aqui… Mas sou brasileira e não desisto nunca! Afinal, existem alemães maravilhosos e vale a pena manter os bons costumes pra ganhar alguns sorrisos por aqui. É verdade! Eles existem! Os alemães simpáticos e sorridentes existem! Inclusive alguns idosos são uma gracinha… por exemplo nossos vizinhos aposentados da frente. 

Gastronomicamente falando, não estou sentindo falta de ABSOLUTAMENTE nada!!! Afinal o que mais amo é tomar café-com-leite (aqui “latemacchiatto” ou “milchkaffe”… ainda não sei qual a diferença…) e comer pão com margarina+geléia, e isso aqui tem de sobra e com variedades e preços irresistíveis! Verduras e legumes são carinhos, mas tem muitos legumes “mini” que são uma delícia. Frutas … maçã tem de penca e pera também, agora a banana… urgh! Ela sempre é comprada verde e os alemães adoram comer quando começa a aparecer aquelas manchas pretas. Vai entender…

O transporte público é um espetáculo! Você paga de acordo com a extensão do trajeto que vai percorrer. Não tem cobrador não! Tudo aqui funciona na base da confiança, pois em tese o povo alemão é muito honesto e respeita bem as regras, porém aleatoriamente pode entrar no transporte um guarda pedindo para ver seu bilhete e se não estiver com ele é multado na hora! Ou seja, o crime não compensa e muito menos a vergonha que vai passar! A parte ruim é que se dormir e passar o número de zonas do bilhete comprado, pode ter o azar do guarda te pegar! Tô na roça, pois amo dormir no ônibus!

Tem muita balada boa por aqui! Já fomos em algumas interessantes, onde rola música dançante para um povo que não mexe nem a sombrancelha… assustador! Mas tivemos o prazer de assistir num bar mexicano os alemães soltando o latino que há neles! Foi engraçado ver um alemão de 2 metros e pouco dançando Flamenco!!! Preciosidades germânicas…

Restaurantes e bares…. sem comentários! MA-RA-VI-LHO-SOS!!!! Come-se e, principalmente, bebe-se muito e muito bem por aqui!!! Beber aqui é um esporte!!! Tô em casa!

As paisagens são pinturas em tela! Às vezes fico olhando e por um minuto sinto como se ainda não fizesse parte desta paisagem ou que talvez nunca consiga me sentir nela… acho que o dia que essa sensação passar é porque a magia acabou…

Ver tanta planície nos leva a lembrar que a Europa é velha… que há milhares de anos seus recursos vem sendo consumidos incansavelmente e suas montanhas foram consumidas pelos movimentos das águas e pelas intempéries que esculpem suas rochas. Um dia o Brasil será velho e plano… foi isso que pensei nessa sequencia de abstrações. Praticamente toda vegetação da Alemanha é plantada e mesmo assim tiveram que desenvolver formas de fazer germinar suas culturas enriquecendo seus solos tão inférteis.

As crianças aqui sem dúvida são felizes por estarem em segurança! Existem aqui inúmeros e imensos campos de plantações  cortados por caminhos onde todas gerações se encontram para caminhar, andar de patinetes, andar de bicicleta, conversar… É lindo ver crianças sendo crianças! 

Os idosos são super ativos e atletas, invejável e… preocupante para o governo que gasta milhões… bilhões para manter tantos idosos num país onde a taxa de natalidade é baixissíma e alarmante!

É um país históricamente rico e culturalmente interessante. Fico ansiosa para falar a língua deles e poder me comunicar e trocar experiências, tentando compreendê-los e poder plantar sementes de alegria neste solo tão gasto e cansado após tantos anos de duras guerras.

Desconhecemos o que é passar milhares de anos em conflito para defender uma terra e para isso vê-la sendo incansavelmente destruída, talvez por isso eu ainda admire tanto esse povo hoje tão endurecido com sua história e ao mesmo tempo tão determinado à transformá-la…

Penso que um homem não nasce triste…. o que faz com sua história pode entristecê-lo! Mas TUDO é uma questão de escolha, pois as tristezas podem ser feridas eternas ou apenas uma brisa que passa e dá espaço ao sentimento de superação!

Assim, acabo o relato no ângulo de uma turista a um passo do futuro, distante de sua pátria, mas levando sua história para dividí-la e nutrí-la em outros povos de outros “mundos”…

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