São Paulo

Recalibrando minhas lentes paulistanas…

Desde que voltei da Alemanha não cheguei a escrever sobre minhas sensações, sentimentos e cia. Não foi por falta de inspiração, podem ter certeza. Aliás, acho que é o excesso que me atrapalha. Excesso de idéias, excesso de insights, excesso de momentos, excesso de tarefas e excesso de devaneios.

Mas hoje, voltando de Sampa e conversando com o Rô sobre o que eu sentia/percebia/via toda vez que visito esta cidade percebi que chegou a hora de escrever sobre minhas lentes paulistanas. Lentes de quem nasceu e cresceu nesta cidade tão confusa que horas desperta amor e horas desperta ira. Enquanto eu não sabia o que era morar em outro lugar, São Paulo era pra mim um lugar perfeito pra se morar. Sim, era perfeito para uma menina solteira, bagunceira, que adorava badalar, que ama dançar, ficar de papo pro ar com amigos no boteco, que podia assistir até 22 vezes a mesma peça de teatro no teatro do SESI na Paulista (AMO Teatro!), que amava percorrer a pé essa mesma avenida encantada quando ouvia estrangeiros conversando e não conseguia entender patavinas, que adorava conhecer bares e restaurantes originalmente exóticos, que ama a diversidade de fenotipos, que ama a mistura cultural presente em cada esquina desta cidade. A minha São Paulo era perfeita sim! Vivi, durante 28 anos, momentos mágicos nesta cidade.

Hoje, após 4 anos morando na Alemanha e agora morando em Jundiaí, minha Sampa já não é mais tão perfeita. Não, não foi a cidade que mudou, fui eu. Logo que voltei, já me dei conta de que eu não pertencia mais àquela cidade. Primeiro foi o choque com o gigantismo. Passando de carro na marginal eu me sentia uma formiga sendo observada por olhos de concreto que vinham de todos os lados e alturas em minha direção. Aquele aglomerado de prédios, juro, me assustou. Cheguei a questionar a existência deles ali quando ainda morava em São Paulo, pois não me lembrava deles. Sei lá, é como se eu nunca tivesse visto aquele lugar. A cegueira típica daqueles que tem poucas (ou apenas uma) referências.

No trânsito tive a impressão de estar naquelas pistas de “Carrinho Bate-Bate”. Pois é, tudo nessa vida depende do seu referencial. Eu, apesar de não ter dirigido na Alemanha, estava acostumada com o trânsito e motoristas de lá, mesmo estando na posição de “Zequinha”. Os alemães, apesar de serem pessoas/motoristas muito intolerantes e impacientes, são extremamente civilizados e dirigem de forma coletiva. Aqui senti os motoristas muito agressivos, vaidosos e individualistas. Para muitos moradores de São Paulo o carro é uma forma de mostrar e praticar poder. De repente o funcionário se transforma em presidente, é ele quem está na direção, é ele quem manda. De uma hora pra outra parece que todo mundo ali tem um “Bat-Móvel”. Triste.

Mas sabemos que existem lugares em São Paulo capazes de nos fazer esquecer daquilo que nos afasta dessa gigante única. São Paulo tem bairros deliciosamente escondidos e arborizados. São interiores metropolitanos, onde ainda se respira um ar não tão nocivo quanto àquele que encontramos na maior parte desta cidade. Isso não é exagero! Basta observar a diferença do céu aqui no interior do céu de Sampa assim que entramos na nuvem cinza pela Rodovia Bandeirantes. Assusta. Existem ilhas de paz no meio do caos paulistano, mas para viver na metrópole é preciso “navegar” de uma ilha para outra e é ai que essas ilhas deixam de ser tão sedutoras pra mim.

São Paulo é um tapa na cara dos brasileiros. É um choque de realidade, principalmente quando o assunto é desigualdade social. É uma cidade que nos apresenta o tempo todo esse problema social que diz respeito à todos nós. Ela não te dá escolha de ver ou não ver. É tudo escancarado. Sim, São Paulo é sem-vergonha. Talvez por isso muitos poetas afirmem que é uma cidade que inspira. Ela inspira porque não se camufla. Ela é o que a gente vê. E são tantos contrastes que é impossível não se inspirar.

Enfim, apesar de ter recalibrado minhas lentes paulistanas e, por isso, estar enxergando as coisas de forma tão diferente, ainda amo esta cidade! A diferença é que hoje temos uma “relação” mais sincera e verdadeira. Uma relação como a daqueles casais que decidem morar em casas separadas pra manter a relação “acesa”. É uma relação complexa, pois ao mesmo tempo que São Paulo hoje me assusta, às vezes preciso justamente daquilo que mais me incomoda. Amo o caos de São Paulo, preciso daquela atmosfera congestionada de energia e partículados, admiro toda gente que trabalha duro pra fazer nosso país melhor pra todo mundo, invejo àqueles que moram perto da Avenida Paulista que é minha grande e absoluta paixão em Sampa, respeito àqueles que trabalham duro ganhando pouco e ainda passam o dia sorrindo e agradecendo à Deus pelo o que possuem e pela benção de poderem morar e viver em São Paulo. São Paulo é de todos. Daqueles que a querem todos os dias e daqueles que só precisam dela (principalmente dos seus restaurantes de comida japonesa…rs) de vez em quando. :D

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5 Comentários para "Recalibrando minhas lentes paulistanas…"

  1. Patricia Sack disse:

    Oi, Maira!
    Vc tem 1000% de razao …
    A minha Sao Paulo sempre foi onde eu matava vontade comendo nos melhores restaurantes, das pecas de teatro e dos recitais de musica classica, onde eu me perdia por horas nas grandes livrarias, onde meu aperfeicoamento profissional acontecia…
    Sempre levei a “alemaozada” na Paulista e no Mercado Municipal e ficava mais maravilhada do que eles. Eh, essa ultima vez de passamos ferias no Brasil fiquei imensamente triste por achar tudo tao cinzento, tao poluido, tao desigual e cheguei a sentir medo. Incrivel como nossos filtros e valores mudam, nao?
    Mas sabe, acho que tambem somos influenciadas pelo fato de termos familia, filhos, e por isso nossas ” lentes” como vc mesmo disse, focam outras coisas, pois somos responsaveis pelos nossos filhotes. Quem sabe…
    Mas apesar disso tudo aprendi que felicidade mesmo nao tem pais, posicao geografica, fronteira, igualdade-desigualdade, idioma… mas estar agradecida e ter contentamento de simplesmente estar viva e fazer diferenca na vida de alguem (seja filho, marido, familia, vizinho).
    Obrigada pelo insight, como sempre vc arrebenta!!!
    Gde abraco,
    Patricia Sack
    :roll:

  2. Ruthmar Gomes barbosa disse:

    Maira,como vai?Hoje li seu email sobre tua vinda p/ Jundiai.Gosto de tudo que vc escreve,principalmente sobre a Alemanha que é o pais dos meus sonhos.Em 2013 irei passar 15 dias estou me programandopq 2012 estive na Europa e usa.Alemanha e Austria quero curtir muito.Estou estudando um pouco do idioma.Escreva sempre que puder ficarei muito feliz.Sou a vô Ruth !Bjos

  3. Meire disse:

    Maira,

    Quando eu morava na Alemanha já te admirava e agora mais ainda. Parabéns pelas suas palavras, você sempre arrasando. Bjs

  4. rogerio occhietti disse:

    adorei seu blog parabens !

  5. Juju disse:

    Adorei o vídeo, e td que vc escreveu.
    Gosto do jeito que vc escrever !!
    E esta música representa da melhor forma possivel, nossa querida S.Paulo !!

    Parabéns pelo belissimo blog, cheinho de informações e coisas lindas.

    abs
    Juju

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