Reflexões

SENTIMENTOS – Voltando a me sentir EU

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Quando cheguei na Alemanha passei por algumas dificuldades relacionadas à minha já insana psique. Uma delas foi o sentimento de ter “me abandonado” conscientemente por um período (no meu caso) pré-determinado. Tá. Eu sei. Escrevi de uma forma dramática, mas é dramático pra quem vive isso.

Sempre fui orgulhosa e fui educada pra conquistar minhas coisas através do meu próprio esforco e, de preferência, ter meu próprio dinheiro para ao menos nao precisar depender de ninguém num momento mais difícil que pudesse acontecer. Cresci ouvindo isso e esse ensinamento fez um pouco do que e de como eu sou. De repente (e foi de repente mesmo) Deus me colocou de frente com uma escolha muito difícil pra alguém que tinha a independência financeira como algo tao valioso e que também tinha orgulho de dizer que tinha se formado no nível universitário (mesmo pagando muito e demorando muito pra isso…hehehe), que tinha orgulho de ter comprado o próprio carro (saudades do Chicao! Sim, ele era vermelho..hehehe) mesmo pagando por 2 anos parcelas incompatíveis com o dinheiro que eu tinha disponível, que tinha o próprio emprego e que tinha orgulho (como as pessoas mais antigas) de ter ficado tanto tempo na mesma empresa. Eu era EU de verdade. Era eu quem fazia acontecer. Era eu que pagava pra acontecer (tá, o banco também pagou pra mim por um bom tempo e sem minha mae eu nao tinha dado a entrada da minha ferrari…hahaha). Eu era a dona das minhas dívidas. Eu é que escolhia quando e onde gastar, sem precisar me preocupar com nada (só com o SPC). Eu era a “dona do meu nariz”.

Que escolha foi essa? Vir pra Alemanha, acompanhando meu marido. Nao decidi SÓ por ele. Aliás, me desculpem as românticas de plantao, mas isso nao existe. Eu decidi por ele, por mim e por nós. Caso contrário nao funciona. Mas a oportunidade oficial foi dada à ele e ele (que “paxono ni mim”) estendeu a oportunidade dele à mim. Quando ele me chamou eu nao pensei muito no que viria, simplesmente aceitei. Ele me alertou muito sobre as possíveis complicacoes e consequências, mas eu, eu nao queria ouvir, pois senao acho que eu teria desistido. Chegando aqui ele foi trabalhar e eu voltei pra “escolinha” com quase 30 anos! Fiquei feliz por ver ele se realizando, mas chorei muito me perguntando: “E eu? Quando vai chegar minha vez? Será que vou conseguir me realizar de alguma forma durante esse período na Alemanha?”. Fiquei alucinada e pesquisei incansavelmente todos os dias algum curso de pós pra fazer, trabalho solidário ou o que quer que fosse. Eu nao queria ficar “apenas” indo pra aula de alemao todo santo dia e sendo tratada como uma adolescente pelas professoras. Eu nao estava naquele “time” (tempo em inglês), mas tive que entrar nele à força. Fiz o curso durante um ano e só Deus e o Rô sabem o que passei e o que estudei pra chegar até o fim em um ano, sem repetir nenhum módulo e sem desistir como muitos fizeram. Depois fui pra Malta e estudei um mês inglês, pra desenferrujar e desencantar o bichinho. Voltei e foi ai que a coisa comecou a piorar, pois eu nao tinha mais que ir pra escola. Decidi comecar a produzir bijouterias pra tentar me ocupar e ganhar um dinheirinho e, além disso, me dediquei à fazer o scrapbook pra minha sobrinha linda. Eu nao tinha mais nada pra fazer a nao ser procurar uma pós e me preparar pra isso. Estudei bastante alemao, pra conseguir uma nota supimpa no teste de proficiência em alemao. Consegui. Depois uma amiga me indicou uma pós e eu pirei. Foquei nisso. Enviei os documentos, me chamaram para uma entrevista e logo depois recebi a confirmacao da vaga.

E agora? AGORA EU SOU EU DE NOVO. E sabe quando eu tive a certeza de que esse sentimento de “auto-realizacao” e de “auto-estima” tinham voltado a fazer parte de mim? Logo quando comecei a ir para a Universidade. Um dia eu estava indo pra Uni e quando cheguei no ponto pra pegar o metrô, tinha um cara parado na frente da máquina onde a gente compra ticket e eu parei atrás dele porque eu precisava comprar também. Ele me pediu pra passar na frente dele e logo em seguida me perguntou com um alemao típico de estrangeiro como ele fazia pra comprar o ticket até o aeroporto. Ensinei pra ele e depois comecamos a conversar, quando eu perguntei pra ele de onde ele vinha (curiooooooooosa…). Ele era do marrocos e só ia ficar um tempo em Stuttgart, pois mora na Alemanha, mas em outra cidade. Ai ele me perguntou de onde eu vinha e (lógico) ficou impressionado que eu vinha do Brasil (nao entendo porque todo mundo fica impressionado quando eu falo de onde eu sou… acho q eles já devem imaginar eu pulando de galho em galho que nem macaco pra chegar em casa…sei lá…). Mas a pergunta que fez eu quase abracar o cara foi: “Você está estudando na Alemanha?”. Eu: “SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMM!”

Nao, vocês nao tem noçao a alegria que eu fiquei de nao ter que dizer que nao. Que eu estava aqui “apenas” acompanhando meu marido e que nao estava nem estudando e nem trabalhando ou que estava “apenas” estudando alemao. É um sentimento delicioso! Foi ali que percebi que eu retomei o MEU caminho independente e isso, isso nao tem preco pra quem é como eu. Foi o sentimento mais extremo e delicioso que provei nos últimos tempos, sabia? Em nenhum momento eu precisei citar o motivo que me trouxe aqui, pois ele nao é mais importante, ele é passado, ele é algo que foi superado. Eu ter vindo porque meu marido recebeu um convite é, agora, apenas um detalhe e o mais importante é o que eu fiz com essa oportunidade. Nao sou mais SÓ uma acompanhante, agora eu SOU EU e fiz meu caminho. Eu AMO o Rô e ele sabe disso melhor do que ninguém, sou grata à ele por TUDO que ele fez e tem feito por mim, mas eu sou um indivíduo e por isso preciso ter meu caminho paralelo ao dele. Eu acredito em: EU, VOCÊ e NÓS. Nao existe pra mim: “VOCÊ e NÓS”. Eu sou EU e eu quero continuar sendo EU, dentro de NÓS. (((-:

Se você também está vivendo uma situacao parecida agora, tenha paciência e procure sempre projetar seu futuro olhando pra dentro. Você sabe SIM o que quer e também saberá como conseguir. O mais importante é nao desistir em hipótese alguma de você, pois um casal realizado e feliz nao é um casal onde um apoia o outro, mas sim um casal que se apoia mutuamente e se realiza individualmente. Pense nisso e SEJA VOCÊ!

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7 Comentários para "SENTIMENTOS – Voltando a me sentir EU"

  1. clo disse:

    Ah, Maira…que delícia!
    Como é bom, e raro, ouvir isto; mesmo em tempos ditos modernos.
    Um beijo no coração

  2. Juana disse:

    Parabéns minha querida! Estou chorando, snif, snif, é exatamente tudo isso para um casal der feliz, respeitando principalmente o seu prório EU, apenas há crescimento para ambos! Beijos, beijos

  3. Sandra disse:

    Eu, que sou firme defensora do indivíduo mulher, que precisa de pensar e buscar seu caminho pra ser feliz, fico super feliz por vc. E como! Beijos, Sandra

  4. Mila disse:

    Fico mto feliz por vc !!! vai em frente e sempre busque seu objetivos…
    nossa (minha e do meu marido) estadia já esta acabando por aqui, vamos para Italia no final do mes q vem, e por causa disso ainda sou uma acompanhante sem raiz….kkk.. pois 6 meses aqui depois mais 6 meses lá, é mais dificil pois qdo estou acostumando já vou embora, mas seus posts me dão mta força e coragem para seguir, nunca para de escrever tá!!
    milhoes de bjs….
    Ah ! venha logo me visitar…

  5. Mila disse:

    Putz esqueci de falar o principal, sou uma acompanhante mega Feliz !!!, tudo bem as vezes fico de saco cheio de não trabalhar pois fazia isso 10hs por dia, mas estou conhecendo lugar e pessoas maravilhosas…bjs

  6. Alessandra disse:

    Nossa, fiquei preocupada ao ler o início deste post, pois achei que vc já tinha superado estas questões. Agora que terminei fiquei aliviada e feliz por vc. E, claro, chorando, como muitas que leram e lerão este post. Mas pode ter certeza que estou chorando por saber que vc chegou à este ponto e ter percebido e compartilhado isso. Espero que muitas pessoas leem este relato e sintam tocadas com a principal mensagem que vc deu: “Que uma relação só pode dar certo quando existe o EU, VC e o NÓS”, e “um casal que se apoia mutuamente se realiza individualmente.” Também compartilho da mesma idéia.

    Sou feliz por ter uma amiga como vc. Espero receber muitos posts de vc

    Beijinhos e saudades
    Alê

  7. Nina disse:

    Nossa! Foi um anjo que me fez ler seu texto/relato hj. Estou a 6 meses aqui na alemanha, perto de munique,meu marido é alemao. esta sendo dificil pra mim, sem amigos estou aprendendo alemao e as relacoes com pessoas sao bem superficiais qdo acontecem, cada foca o seu objetivo, faco curso de integracao. No curso as pessoas competem muito e querem mais e passar na rova e tschau! minha sensacao e de no pertencer a grupo nenhum e ter voltar pra escolinha depois de muito esforco no brasil, fiz Facul de Letras. Seu texto me deu agora, agorinha uma luz no fim do tunel, com tempo espero recuperar eu mesma. bjs se cuida
    nina

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