dez
3
Recalibrando minhas lentes paulistanas…

Desde que voltei da Alemanha não cheguei a escrever sobre minhas sensações, sentimentos e cia. Não foi por falta de inspiração, podem ter certeza. Aliás, acho que é o excesso que me atrapalha. Excesso de idéias, excesso de insights, excesso de momentos, excesso de tarefas e excesso de devaneios.

Mas hoje, voltando de Sampa e conversando com o Rô sobre o que eu sentia/percebia/via toda vez que visito esta cidade percebi que chegou a hora de escrever sobre minhas lentes paulistanas. Lentes de quem nasceu e cresceu nesta cidade tão confusa que horas desperta amor e horas desperta ira. Enquanto eu não sabia o que era morar em outro lugar, São Paulo era pra mim um lugar perfeito pra se morar. Sim, era perfeito para uma menina solteira, bagunceira, que adorava badalar, que ama dançar, ficar de papo pro ar com amigos no boteco, que podia assistir até 22 vezes a mesma peça de teatro no teatro do SESI na Paulista (AMO Teatro!), que amava percorrer a pé essa mesma avenida encantada quando ouvia estrangeiros conversando e não conseguia entender patavinas, que adorava conhecer bares e restaurantes originalmente exóticos, que ama a diversidade de fenotipos, que ama a mistura cultural presente em cada esquina desta cidade. A minha São Paulo era perfeita sim! Vivi, durante 28 anos, momentos mágicos nesta cidade.

Hoje, após 4 anos morando na Alemanha e agora morando em Jundiaí, minha Sampa já não é mais tão perfeita. Não, não foi a cidade que mudou, fui eu. Logo que voltei, já me dei conta de que eu não pertencia mais àquela cidade. Primeiro foi o choque com o gigantismo. Passando de carro na marginal eu me sentia uma formiga sendo observada por olhos de concreto que vinham de todos os lados e alturas em minha direção. Aquele aglomerado de prédios, juro, me assustou. Cheguei a questionar a existência deles ali quando ainda morava em São Paulo, pois não me lembrava deles. Sei lá, é como se eu nunca tivesse visto aquele lugar. A cegueira típica daqueles que tem poucas (ou apenas uma) referências.

No trânsito tive a impressão de estar naquelas pistas de “Carrinho Bate-Bate”. Pois é, tudo nessa vida depende do seu referencial. Eu, apesar de não ter dirigido na Alemanha, estava acostumada com o trânsito e motoristas de lá, mesmo estando na posição de “Zequinha”. Os alemães, apesar de serem pessoas/motoristas muito intolerantes e impacientes, são extremamente civilizados e dirigem de forma coletiva. Aqui senti os motoristas muito agressivos, vaidosos e individualistas. Para muitos moradores de São Paulo o carro é uma forma de mostrar e praticar poder. De repente o funcionário se transforma em presidente, é ele quem está na direção, é ele quem manda. De uma hora pra outra parece que todo mundo ali tem um “Bat-Móvel”. Triste.

Mas sabemos que existem lugares em São Paulo capazes de nos fazer esquecer daquilo que nos afasta dessa gigante única. São Paulo tem bairros deliciosamente escondidos e arborizados. São interiores metropolitanos, onde ainda se respira um ar não tão nocivo quanto àquele que encontramos na maior parte desta cidade. Isso não é exagero! Basta observar a diferença do céu aqui no interior do céu de Sampa assim que entramos na nuvem cinza pela Rodovia Bandeirantes. Assusta. Existem ilhas de paz no meio do caos paulistano, mas para viver na metrópole é preciso “navegar” de uma ilha para outra e é ai que essas ilhas deixam de ser tão sedutoras pra mim.

São Paulo é um tapa na cara dos brasileiros. É um choque de realidade, principalmente quando o assunto é desigualdade social. É uma cidade que nos apresenta o tempo todo esse problema social que diz respeito à todos nós. Ela não te dá escolha de ver ou não ver. É tudo escancarado. Sim, São Paulo é sem-vergonha. Talvez por isso muitos poetas afirmem que é uma cidade que inspira. Ela inspira porque não se camufla. Ela é o que a gente vê. E são tantos contrastes que é impossível não se inspirar.

Enfim, apesar de ter recalibrado minhas lentes paulistanas e, por isso, estar enxergando as coisas de forma tão diferente, ainda amo esta cidade! A diferença é que hoje temos uma “relação” mais sincera e verdadeira. Uma relação como a daqueles casais que decidem morar em casas separadas pra manter a relação “acesa”. É uma relação complexa, pois ao mesmo tempo que São Paulo hoje me assusta, às vezes preciso justamente daquilo que mais me incomoda. Amo o caos de São Paulo, preciso daquela atmosfera congestionada de energia e partículados, admiro toda gente que trabalha duro pra fazer nosso país melhor pra todo mundo, invejo àqueles que moram perto da Avenida Paulista que é minha grande e absoluta paixão em Sampa, respeito àqueles que trabalham duro ganhando pouco e ainda passam o dia sorrindo e agradecendo à Deus pelo o que possuem e pela benção de poderem morar e viver em São Paulo. São Paulo é de todos. Daqueles que a querem todos os dias e daqueles que só precisam dela (principalmente dos seus restaurantes de comida japonesa…rs) de vez em quando. D



jun
7
FESTA – De volta ao Brasil!

“Auf Wiedersehen Deutschland!” (Até a próxima vez Alemanha!)

Agora é pra valer, só não sei até quando. -D

Chegamos dia 28/05/2011 (sábado) e no domingo já fomos para nossa moradia temporária em Jundiaí (interior de SP). Voltamos com tudo, inclusive com filho!!! Pois é, o mundo mudou muito desde a nossa vinda pra cá. Quando viemos o “mundo era dos 2″ e agora, olha que fantástico, “o mundo é dos 3″!!! Uhúúú!!! Nós vamos dominar o mundo!!! -D

Estamos voltando com muitas bagagens pra poder caber tuuudo que adquirimos na Alemanha, menos o Rafinha (rs). Nelas estamos levando todas as sensações que vivemos, as experiências, as memórias, as saudades, as imagens, os sabores, as cores, os cheiros, as formas, os sons, os momentos inesquecíveis e únicos que vivemos durante nosso tempo por lá. Mas, sem dúvida, na maior bagagem levamos o sentimento de superação, de tarefa cumprida, de vitória. Sim, estamos voltando com o sentimento de termos ultrapassado a linha de chegada. -D

Se estamos felizes!? MUITOOOOOO!!! Mas também estamos sentindo uma certa confusão sobre nossos sentimentos. Hein!? Pois é. Estamos felizes por estarmos voltando para nosso país que, apesar de tudo o que há de ruim, AMAMOS muito e por isso sempre desejamos esse retorno. Principalmente porque estaremos, enfim, mais próximos dos nossos familiares e amigos. Mas, por outro lado, estamos um pouco tristes, pois aqui também fizemos amigos que deixaremos. A parte boa é que uma boa parte deles a gente vai poder aproveitar no Brasil, já que o povo resolveu voltar em peso. Oba! Mas, além disso, também acabamos nos adaptando e nos acostumando com algumas coisas que, admito, irão fazer falta. O bom é que sabemos que tudo aquilo que está nos impulsionando pra voltar irá compensar as coisas boas que deixamos lá. Afinal vivemos a maior parte das nossas vidas sem elas e sempre fomos muito felizes, certo!? -D

Eu, particularmente, só tenho um receio neste momento. Tenho receio de estar criando falsas expectativas no que diz respeito à familiares e amigos. É uma das coisas que mais me move para voltar, mas tenho medo de ao chegar perceber que ficou uma “lacuna” entre a gente. Principalmente em relação aos amigos. Tenho receio desse tempo fora ter nos afastado, de termos mudado tanto a ponto de não nos sentirmos mais assim tão próximos. Tenho receio de muitos se afastarem por colocarem a gente em um “pedestal” só porque moramos na europa durante alguns anos. Por isso, gostaria de mais uma vez dizer que mudamos sim, mas nossa essência, que é aquilo que nos aproximou algum dia, continua a mesma. Nossos valores continuam os mesmos e continuamos cultivando a simplicidade e humildade como base para nossa vida. Ter morado na europa foi uma ótima experiência, principalmente porque através desta experiência colocamos nossos “pezinhos” no chão e perdemos (se é que algum dia tivemos) aquele maravilhamento que quase todos brasileiros tem quando pensam em europa. Chique? Chique pra mim hoje é poder andar descalça na terra batida, é poder estar perto da família e dos amigos, é poder tomar água de coco geladinha direto do coco, é poder almoçar no domingo com a família fazendo barulho, é estar com amigos bebendo num bar sem conseguir terminar um único tópico por vez (isso quando, de fato, existe algum tópico…rs), é poder fazer guerrinha de mangueira, tomar banho de cachoeira, comer miojo cru no acampamento, apanhar manga do pé e arrancar uma linha da roupa para tirar os fiapos do meio dos dentes. Ser chique, pra mim e para minha família é ser simples.

Enfim, são apenas receios. Medo da frustração. Mas sei que faz parte e hoje sei que só ficarão aqueles amigos que ainda tem alguma “missão” a cumprir junto com a gente. Os outros serão sempre lembrados como bons amigos de outras fases, que participaram de outras “missões” e que foram importantes naquele período. É nisso que acredito hoje. Amigos não deixam de ser amigos jamais, eles simplesmente se fazem presentes em períodos e momentos específicos e, devem sempre ser lembrados com carinho e gratidão.

Em compensação não tenho receio quanto à nossa readaptação, mesmo tendo consciência de que sentiremos falta de algumas coisas, como já escrevi anteriormente. Sim, além de algumas pessoas que conhecemos aqui e que se tornaram muito especiais pra gente, também sentiremos falta de outras coisas como segurança, infra-estrutura, civilidade, organização, cerveja boa (apesar de “quente” rs), festas típicas tipo Oktoberfest, Biergartens, Cafeterias, estrangeiros pra todos os lados (o que nos fazia menos sozinhos…rs), dos parques, das videiras à 10min. de casa caminhando, de dizer que sou brasileira cheia de orgulho e simpatia (rs), dos preços (de quase TUDO), da qualidade dos produtos, do IKEA (uma loja gigaaaaante para comprar TUDO para casa), do Pilum (meu restaurante predileto com o meu garçom predileto…rs), do meu obstetra que é um fofo, do pediatra do Rafa que é um fofo e um gato (rs), das janelas e jardins decorados durante as festividades, da forma objetiva com que os alemães se comunicam e resolvem os problemas, das tortas, das saladas, das invenções alemães que facilitam nosso dia-a-dia, do Kebap (mesmo que já tenha em SP, duvido que é melhor e mais barato do que o daqui…rs), das estações do ano tão bem definidas, das folhas amareladas no outono, dos botões abrindo na primavera, da sensação da neve fazendo cócegas no nariz da gente, da posição geográfica que favoreceu e muito nossas viagens e por ai vai.

Pois é, estando aqui ou lá sempre iremos sentir falta de algo. O que estamos fazendo é escolhendo aquilo que é mais importante pra gente e, hoje, o mais importante para nós é estarmos perto dos nossos familiares e amigos em uma terra onde a gente sinta que “pertence”. Sabemos de todas dificuldades, afinal moramos mais de 25 anos de nossas vidas no Brasil e ambos já moraram na cidade mais caótica que é SP, então não estamos voltando com ilusões e nem falsas expectativas quanto ao que vamos encontrar no quesito “ordem e progresso”. Sabemos que ordem definitivamente não existe e progresso, bem este existe, mas sabemos que ele é leeeento.

Mas os problemas, definitivamente, não nos interessam, afinal não estamos voltando impulsionados pelo que há de pior, mas sim pelo que há de melhor no nosso país. Se tem? Opa! E se tem! O Brasil é calor, é amor, é alegria, é música, é folia, é natureza, é diversidade, é tolerância, é plural, é ritmo, é movimento, é dança, é tropical, é humano. O Brasil é nossa casa que sempre nos recebe de braços abertos para um abraço quente e apertado. E é isso que queremos: ser abraçados calorosamente pelo nosso país e seu povo. E esperamos contar com vocês pra isso. -D

É isso. Estamos voltando felizes, realizados e gratos à Deus por ter nos dado a oportunidade de viver esta fase das nossas vidas de forma tão intensa e feliz. O saldo é POSITIVO e isso é o mais importante. Não foi, pra mim, uma escolha fácil ter ido pra Alemanha. Não foi um processo fácil nos adaptar (principalmente pra mim). Mas conseguimos! Fizemos amigos (inclusive muitos alemães extremamente especiais), enriqueci meu currículo para aquilo que quero profissionalmente, o Rô adquiriu mais experiência internacional na área dele, amadurecemos muito, ampliamos nossos horizontes, revisamos alguns pontos de vista, mudamos nossos referenciais, fizemos o que mais amamos que é viajar muito, festejamos muito, bebemos muito, namoramos muito, tivemos o maior presente das nossas vidas aqui (o Rafinha!), VIVEMOS muito e é isso que vai ficar na nossa memória de Alemanha. Enfim, como diria o Robertão: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”. -D

No momento temos tanta coisa pra resolver que nem dá tempo de relatar tudo como eu gostaria, mas em breve vou escrever um post sobre as primeiras impressões, sejam elas boas ou ruins. Além disso, pretendo em breve voltar a escrever mais no blog e sei que assunto não vai faltar. Pois é, parece que minha inspiração está voltando. É verdade! Estamos vivendo tantas situações estressantes ao mesmo tempo, mas pelo simples fato de estar aqui com “meus homens” me sinto TÃO FELIZ! Aaaaahhh!!! -D

Pra completar só falta encontrarmos um cantinho nosso e reencontrar todos nossos familiares e amigos com muuuita calma. Pois é. Essa é a parte boa de não estarmos por aqui de férias: temos tempo! -D



nov
21
BRASIL SEM MÁSCARA – Preconceitos

Estou triste com a onda de preconceitos que vem, até que enfim, aparecendo no Brasil. Sim, pois sempre nos entitulamos como uma nacao que aceita todos os tipos de pessoas, mas ao mesmo tempo sempre soubemos que isso é hipocrisia. Todos sabemos que na verdade o que existia no Brasil era um preconceito “abafado”, “mascarado”. Agora isso acabou.

As últimas eleicoes foram ótimas pra tirar a máscara de muita gente, mostrando à todos nós como o preconceito contra nordestinos está latente na nossa sociedade (e nao venham me dizer que isso só acontece em Sao Paulo, porque isso também nao é verdade). Também nos mostrou abertamente uma sociedade vergonhosamente conservadora e hipócrita, diante das discussoes referentes à aborto e cia. E agora, como se nao bastasse, surgem mais acoes violentas contra homossexuais. Fora as agressoes diárias (tanto físicas como morais) sofridas também por descendentes afro-brasileiros e pobres que vivem na nossa sociedade.

Estou triste porque sou contra todos estes preconceitos. Estou triste porque nossa imagem de “pátria mae” nao é verdadeira. Estou triste porque ainda existem seres humanos que acreditam ser superiores à outros seres da mesma espécia, quando na verdade sao muito, muito pequenos.

Por outro lado, estou feliz. Estou feliz porque percebo que o Brasil no qual acredito nao está mais ficando calado. Estou feliz porque a máscara está enfim caindo e com isso pelo menos sabemos onde está o mal, logo fica mais fácil combatê-lo. Antes nao sabíamos. Os preconceitos na nossa sociedade estavam camuflados, o que dificultava qualquer confronto direto, mas agora nao. Agora nós sabemos que eles existem sim e sabemos da necessidade de combatê-los. Ninguém mais quer aceitar isso. Nenhum nordestino, negro ou homossexual quer sentir medo ou vergonha de ser o que sao, pois eles nao devem ter vergonha. Eles devem sim se unir e pedir aquilo que nossa constituicao, logo nossa sociedade, os deve: IGUALDADE E LIBERDADE.

Hoje estou longe do Brasil, mas juro que quando voltar estarei presente sempre que puder em protestos a favor destes direitos, pois eu, apesar de nao fazer parte destes grupos, sou um ser humano como eles e sei que nao tenho mais direitos que eles justamente por isso. Se o direito deles está sendo ferido, os meus, como cidada, também.

Infelizmente fiquei sabendo só agora sobre um protesto que vai acontecer hoje ai no Brasil contra os atos descriminatórios contra os homossexuais, mas se você está por ai, vale a pena participar e ajudar a fazer um Brasil melhor para todos nós. Para mais infos sobre o protesto clique aqui!

É isso pessoal. Eu tinha que escrever sobre isso, pois quando vejo coisas desse tipo acontecendo no país que amo e sabendo que pessoas que amo fazem parte destes grupos, preciso fazer alguma coisa. Mesmo que só virtualmente. )-:

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